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Cristina Rioto

Cristina Rioto, autora, poeta, atriz e publicitária, é natural de São Bernardo do Campo (SP). Criou o Caixa de Saída.

[Nota da jornalista: pela primeira vez neste espaço, peço licença para introduzir uma informação que gostaria que guiasse a sua leitura. Você verá, a seguir, a entrevista que o Três por Quatro fez com a autora Cristina Rioto. No desenrolar da conversa, escolhi explicitar a atmosfera íntima em alguns momentos. Cris é uma pessoa muito próxima e querida por mim, com quem tenho uma relação pessoal, então usei muito do que sei e vivi com ela para tentar apresentá-la aqui e acessar lugares interessantes de sua trajetória tão linda. Boa leitura!]

Queria te pedir para falar sobre o papel da escrita na sua vida. A partir de que momento você entendeu que faz isso bem?

Foi conforme eu amadureci o meu olhar para o que é importante. A escrita sempre esteve presente na minha vida, sempre foi um lugar que, bom, eu nunca pensei para chegar – era um lugar. Estava ali. Sabe? Era o meu lugar. Onde eu estivesse, estava comigo. Era um lugar de pensar melhor, de me encontrar, de aliviar o que eu sentia. Desde que sei escrever, nunca precisei pensar sobre a escrita. Era uma ação muito orgânica. E aí, quando você fala sobre a importância, é algo tão… nuclear, tão essencial, sempre esteve tão presente que só fui me dar conta do tamanho quando o tempo passou, comecei a compartilhar algumas coisas e as pessoas passaram a me perguntar sobre a escrita – porque eu nunca pensei sobre ela, entende? Exemplo bobo: você não pensa sobre beber água, sabe? São coisas que são suas, que estão ali e que, como o acesso é fácil, você consegue fazer de onde estiver, seja num bloco de notas do celular ou num papel. Mas, quando eu comecei a compartilhar e as pessoas passaram a ter interesse sobre a minha relação com a escrita, foi aí que consegui mensurar. A escrita é. Ela é minha. Eu nunca me senti sozinha quando escrevia.

Qual foi o momento mais importante da sua vida profissional até hoje?

Eu me formei na escola, lá atrás, e comecei a estudar Publicidade e Propaganda – e questionar a propaganda e ter um contato com a Arte [Cristina é atriz pelo Teatro Escola Célia Helena, de São Paulo] foram coisas que mudaram a minha vida. Como repertório, como ferramenta – eu não tinha antes esse background de Arte na minha história, na minha formação e no meu convívio. A Arte é um marco, com certeza é. O Caixa de Saída é um marco também, muitas pessoas me conheciam desde sempre e não sabiam que eu gostava de escrever, que eu escrevia bem, que tinha vontade de compartilhar, então não foi uma mudança de carreira, foi uma mudança na forma como passavam a me enxergar, como eu me colocava no mundo – não só no trabalho, mas na minha vida. Muito começou a acontecer a partir daí.

Achei que, talvez, você fosse falar sobre o lançamento do livro.

O livro… Acho que até hoje essa ficha não caiu. (Risos) Esses dias, a minha irmã de 11 anos me mandou uma mensagem falando que viu um cara comprando o livro em uma livraria – e é uma loucura isso. Ainda não assimilei que algumas pessoas têm as minhas palavras na cabeceira. É uma coisa gigantesca, porque o digital faz a gente perder a noção. São pessoas lendo, sentindo, compartilhando. Com o livro, consigo ter isso decantado dentro de mim. Com certeza também foi um marco.

Eu acho lindo que o que tem te levado cada vez mais longe, tão adiante, são as suas palavras. É muito bonito. E não só suas palavras, né? Suas ideias também.

Amo profundamente isso. Nem sei o que responder. Vou tentar. É tão mágico pra mim que fica difícil explicar. As palavras viram um caminho entre a minha pessoa e a outra pessoa que eu não conheço… e é quase como se ela pudesse me acessar num lugar muito íntimo de alguma maneira. Se a gente sentar para se debruçar nisso, para esmiuçar, enfim, vão aparecer outras coisas, mas é um processo de ser vista de forma muito especial, muito interna. Eu valorizo isso. Aprecio muito este tipo de linguagem, então fico honrada e feliz. E eu amo. Amo que as pessoas passaram a me conhecer em uma camada tão valorosa para mim.

Sobre o seu processo de criação, você tem algum ritual ou algum processo estabelecido? Como a sua escrita nasce?

Sim… e não. Eu frustro as pessoas quando me perguntam sobre processo criativo, porque ele não é linear – mas algumas coisas se repetem. Posso dizer que tem algum processo, como ouvir música e tentar sair do “comum” – que é trabalhar numa tela de computador e fazer as mesmas coisas -, isso seria sim uma ferramenta para arejar a minha criatividade, para ter insights, enfim, movimentar o que tem dentro. Mas muitos caixas de saída já nasceram de um áudio que eu mandei pra uma amiga, por exemplo. Assim como, em outros, eu estava andando na rua e vendo uma paisagem, aí tive uma sensação de algo que eu tinha para dizer, então anotava três palavras num bloco de notas e depois ia lapidar, lapidar, lapidar. Não tem muito uma regra, mas algumas coisas se repetem.

Existe uma jornada de várias mudanças profissionais na sua vida. Não é fácil repensar o jogo, e não estou falando sobre desistir, mas sobre deixar alguns caminhos de lado e tentar outras coisas. Queria saber o que pensa sobre isso, olhando para uma primeira faculdade interrompida, uma experiência morando fora, um retorno, aí tem um trabalho em loja para pensar no que fazer… os anos no Teatro, testes, publicidades, restaurantes… De repente, uma pandemia, um momento de “e agora?”, aí a vida publicitária e então o caminho como criadora de conteúdo, autora e poeta. Não sei se isso é uma coisa comum, eu diria que não, né?

Cara, olhando retroativamente é uma maluquice, não é? Muitas voltas. Enquanto eu te ouvia fazer a pergunta, sinto que tudo sempre esteve ali. E não sei se faz sentido responder com um “eu não me desfiz de nada”, mas as Artes Cênicas, a Publicidade, tudo está presente na minha vida. Tudo foi ferramenta. Quando você olha para o Caixa de Saída, ali são sínteses de sentimentos com os quais as pessoas se relacionam. Eu sinto que, para ter estofo e conseguir nomear alguns afetos a ponto que ressoem no coração de outras pessoas, você também tem que ter o que oferecer. Eu não sou uma pessoa super experiente de idade, eu tenho a minha experiência, claro, não sou mega jovem [Cristina tem 32 anos], mas, para falar sobre sentimentos, acho que ter percorrido vários caminhos, ter tido dúvidas, ter errado, desapegado, repensado… isso tudo trouxe matéria para que eu tenha o que contar.

Mas você não tem medo de mudar de ideia. Ou, se tem, vai com medo. Você é corajosa.

Mas é um mix de coisas, tinha uma imaturidade também, isso de soltar com facilidade, tinha o privilégio de poder repensar rotas… e um tanto de ingenuidade. Eu acho que não tenho medo, mesmo. Hoje eu mudaria tudo de novo, sabe? Claro, algumas coisas foram circunstâncias da vida, também. Pandemia. Eu não tinha muito e fiz o que tinha nesse cenário. Fiz o que eu pude com o que eu tinha na hora. Em cada transição, era algo que estava permeando ali, mas, agora, olhando para trás, tudo é matéria para que exista esse ou aquele poema e sei lá o que mais que vou escrever.

É que não é fácil ser aberta a virar uma esquina quando você pode continuar no caminho semi-pavimentado. Tem ali outro que parece promissor, mas, quando você vira, deixa muita coisa.

Acho que como você se sente te dá muitas notícias. As coisas vão se desenrolando.

E tem algo também que eu aplaudo: quando você se decide, você se decide.

Sim. Mas trago até um contraponto – o fato de eu pensar tanto sobre uma decisão antes de tomá-la é o que faz com que ela seja mais fácil.

Ainda assim é admirável. Tudo bem, elas estão bem lapidadas, mas você tem uma concretude mental que não abre muito espaço para dúvidas depois que você está em paz com o que escolheu. Admiro muito isso em você.

Bom, seguindo: você está onde gostaria de estar?

Sim.

Foi fácil de responder!

Respondi muito rápido, né? (Risos) Mas sim, estou, nunca imaginei que estaria no lugar em que estou hoje, nunca pensei que seria uma redatora que possui um trabalho poético que é bem recebido na internet e que se desdobrou no livro, que consegue dar oficinas de escrita… Ter tantas transições na profissão significa se despedir de muitas “eus” que imaginei para dar espaço a outras e, claro, planejamento é uma coisa muito boa, é importante, mas é tão maravilhoso perceber que você pode ir descobrindo onde pode chegar, como pode ser… Qual é o desenho que isso vai ter? Onde vai me levar? Eu posso ter algumas intenções, claro, para poder me direcionar, mas a vida é maravilhosa também, ela é maravilhosa. Parece meio místico falar isso aqui, mas acho que o que você coloca nela causa movimento. É tão mágico descobrir com a vida! Não imaginei que eu estaria aqui hoje, falando com você, então o que mais que não sei e que posso me surpreender positivamente vai acontecer se eu continuar me colocando e desenhando com a vida?

É essa fluidez que você deseja para o Caixa de Saída?

Com o Caixa, estou com vontade de experimentar. Coisas novas. Desejo elasticidade para que ele continue sendo o que é, que sou eu de alguma forma, mas não necessariamente nesta caixinha que as pessoas conhecem hoje. Tenho produzido muito, e são poemas que não cabem no Caixa. Não sei explicar, penso “isso não é caixa de saída”, mas é tão latente o que estou escrevendo… Então o que desejo é que ele continue sendo poesia. Não sei exatamente como.

Imagine que alguém não te conhece e não consegue te ver. Como você se descreveria? Por fora, mas por dentro também.

Eu sou uma mulher branca, com cabelo castanho claro. Tenho uma franjinha meio curtinha, cabelo liso. Meus olhos são grandes e eles chamam atenção no meu rosto, são bem redondos, esverdeados. Eu tenho algumas sardas no rosto. Uma altura mediana, uma mulher magra. Sou sorridente, – acho que posso falar isso. Um breve resumo! (Risos) E internamente, eu sou uma mulher sensível, inteligente, interessada nas pessoas… Interessada na sutileza das coisas da vida e nos encontros com os outros e comigo mesma.

Fotos: Carolina Vianna

Entrevista: Fernanda Meirelles