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Julia Pak

Julia Pak, capixaba, é estilista e criadora do Julia Pak Atelier.

Você teve um momento de virada de chave, em que teve certeza de que iria trabalhar com o que você faz hoje?

Tem um momento específico, sim, em que eu entendi que ainda iria trabalhar com vestidos de noiva. Mas ser estilista não passava pela minha cabeça, até porque era a última coisa que eu falei que seria na vida, não achava que tinha talento – e os professores da faculdade concordavam. (Risos)

Jura?

Pois é. Bom, fui para Nova Iorque pela primeira vez quando tinha 18 anos. Foi numa Páscoa e meu pai me levou – era o meu sonho. Ele me perguntou onde eu queria ir e me pediu para fazer uma lista. Nessa lista, estava a loja da Vera Wang, na Madison Avenue. Meu pai me perguntou o que eu iria fazer lá, e eu disse que não sabia. (Risos) Cheguei e era tudo fechado, não dava para ver nada, nem vitrine tinha, tinha o nome da Vera Wang, um manequim com um vestido de noiva num fundo preto, tudo preto, e um interfone. Toquei.

Atenderam e perguntaram se eu tinha horário marcado. Falei que não, que eu era uma estudante de Moda do Brasil, muito fã da Vera Wang, e que queria ver como era a loja. E a atendente me chamou para subir e conhecer. Acredita?! Subi e a loja era toda de veludo preto, com os vestidos de noiva, vários provadores bem grandes, as noivas e os assessores ou amigos com taças de espumante… E os vestidos nas araras, iluminados! Aí um cara me perguntou se eu queria experimentar um vestido! (Risos) Falei que não precisava, mas pedi para o meu pai tirar uma foto muito discretamente… (Risos) E aí tem uma história engraçada, porque postei com a legenda “The first time I met heaven” e eles repostaram… no feed deles! Naquela visita, eu tive certeza de que trabalharia com isso algum dia na minha vida, com alguma coisa que tivesse relação com aquele momento.

Que bom que você tocou o interfone! (Risos) Julia, você fez faculdade no Espírito Santo ou em São Paulo?

Fiz aqui, na FAAP. Vim para São Paulo para estudar aqui.

É uma mera especulação, mas você acha que, se não tivesse vindo, a sua vida seria muito diferente? Ou imagina que estaria trilhando um caminho parecido?

Acho que teria virado outra pessoa. Quando eu estava no ambiente “Vitória, Espírito Santo”, numa cidade extremamente pequena, litorânea, bem provinciana no estilo de vida, eu realmente era meio diferentona, olhava muito para fora, e eu me julgava uma pessoa até meio superficial, sabe? Não estava nem aí pra nada, era muito ligada na matéria. Acabei indo para Moda, mas não entendia a profundidade na minha relação com a roupa, com esse nicho da Moda, achava que era meramente porque eu me vestia bem. Eu não entendia.

Quando venho para cá e realmente conheço um grupo de pessoas extremamente materialista, até mesmo dentro da indústria da Moda, isso me faz ver o contraste: o quão profunda eu era, o quão consciente eu era, e como aquilo me fazia mal. Precisei desse contraste para me tornar a pessoa que busca ser mais consciente todos os dias. E se eu não tivesse saído de Vitória, não teria encontrado esse contraste tão cedo, tão jovem, com 17 anos, e não teria feito nada do que eu fiz.

Sobre a sua relação com arte, você já se via artista ou isso foi acontecendo com o desenvolvimento da sua “persona estilista”?

Tem dois lugares diferentes – existe eu como pessoa criativa que sempre fui, sempre fiz aulas de canto, de dança, balé, sapateado, jazz… Eu vi a minha mãe fazer uma segunda faculdade, de Arteterapia. Vi a minha mãe se descobrindo no paisagismo, no mosaico, dando aulas dentro de casa, fazendo exposição, isso para mim era muito comum, essa questão do criativo como forma de expressão. Sempre fui muito expressiva, inventava coisas. Tem uma história engraçada, eu tinha 10 anos e meus pais me falaram para eu escolher as cores das paredes do meu quarto, aí fui a uma loja de tecido, porque eu decidi que queria começar pela loja de tecido, pelas cortinas. Vi um tecido pink com laranja e falei “essa é a minha cortina e eu quero uma parede assim, pink com laranja”. Meus pais concordaram, eles nunca me travaram. Aí foram comprar as tintas e o cara da loja não quis vender! Falou que voltariam lá depois reclamando não combinou! (Risos) E meu pai disse “você não conhece essa aqui, não!”. Sei lá quantos anos depois, a Prada lança um perfume, Candy, com a mesma exata identidade visual, as mesmíssimas cores que eu escolhi naquela época. Mas aí tem também o meu lugar enquanto artista: como nunca me levei muito a sério, fui me aceitar como a artista profunda que sou, talentosa, não sei… no ano passado. Ou neste ano, na verdade.

Como assim?!

Passei muito tempo achando que estava aqui por engano, que tudo foi uma mera coincidência. Via o Atelier crescendo com planos de vender, de colocar outros estilistas. Sempre sentia que eu estava ocupando um lugar que não era meu, porque eu… eu não tinha aptidão para desenho, quase não fiz Moda porque eu não desenhava. Mas entrei num curso na Parsons depois da faculdade e voltei de lá transformada. Aquilo ali me libertou criativamente. E teve um outro momento: entrei na FAAP porque eles tinham um concurso chamado “FAAP Moda”, eles lançam um tema, todo mundo pode se inscrever e aí eles escolhem pelo croqui. Os seis finalistas ganham patrocínio para montar a coleção. Era o meu sonho, eu pirava nesse concurso. Só que passei a faculdade inteira recebendo críticas, falando que eu não desenhava bem, que as minhas coleções não eram boas. Não fui incentivada em nenhum momento. No meu último semestre, era a última chance e decidi me inscrever. Passei. Ali para mim foi uma realização, mas a primeira coisa que eu escutei quando fiz a primeira reunião um profissional de lá foi “não sei como você passou. Sua coleção é ruim”. (Risos) Conclusão, dei um upgrade na coleção, ele deu os pitacos dele e, no fim das contas, fiquei em segundo lugar.

Ou seja, foi super bem.

Estes dois momentos me fizeram estilista, mas eu não me levava a sério como artista, esse processo foi realmente recente.

Atualmente, para criar, você busca muitas referências, faz várias buscas e pesquisas ou mergulha dentro do seu próprio estilo e da linguagem que já tem?

Existem dois processos, aquele em que eu vou criar produto, mesmo, como a minha linha casual, e aí busco realmente referências de design que me atraem e que eu acho funcionais… é quase como se o meu processo para criar roupas casuais fosse “como eu posso melhorar peças que já existem”. Não tenho uma pretensão de inventar peças diferentes para o dia a dia. Acabo criando, mas mais nesse processo de funcionalidade, “como é que eu posso transformar um vestido básico em uma coisa autêntica?”, e aí eu pego um shape de um vestido básico, que não tem nada demais, e boto uma ponta assimétrica. Sabe?

E tem o meu processo mais criativo, que funciona de uma maneira muito específica. Eu olho para uma coisa… e enxergo um vestido! Às vezes olho uma textura, penso nela e já me vem um vestido. Sou muito guiada pela sensação também, para mim, roupa é sensação – muito mais do que imagem, eu ligo para a sensação que essa roupa vai me passar. E aí depois, e com isso, eu olho para o caimento no corpo, e então vou acentuando e valorizando as curvas da mulher. O meu vestido Magnólia, por exemplo, quando eu o visto, vem uma sensação… eu me sinto sexy, mas também me sinto leve!

Sobre corpos, vestir corpos diferentes, sempre foi um pilar para você ou foi acontecendo no seu trabalho conforme você viu que faltava na indústria?

Sempre foi um pilar para mim. Com 14 anos, tive um distúrbio de imagem que acompanhou um distúrbio alimentar. Quando entrei na faculdade, vi mais de perto de perto a indústria que eu acompanho desde novinha e aí, ao abrir o Atelier, eu cheguei a querer sair da indústria, “isso aqui realmente não é para mim, nada vai mudar e eu não concordo com o que tem aqui”. Mas, quando eu ia sair, a minha prima ficou noiva e me pediu para fazer o vestido dela, foi tudo na mesma época. Pensei “quer saber, nada é por acaso, eu estava aqui pedindo uma porta para o universo” e, quando ela me ligou, eu sabia que aquela era uma porta. Aí fiz o vestido, fiquei muito feliz e já no casamento dela a minha segunda cliente apareceu. Ali me deu “cinco minutos” e decidi abrir a marca.

Você tem vontade de fato de ser um ponto fora da curva, de fazer “diferente” nesse cenário de moda para noivas? Pensa muito sobre isso?

Não. É que… eu só tenho uma forma de ver as coisas, entende? De ver o mundo. Eu não penso em ser “a diferente”, eu só penso em não passar por cima dos meus valores. Lembro que, na primeira entrevista que fizeram comigo, lá em 2017, eu tinha lançado a minha segunda campanha e uma das modelos era uma mulher preta e a outra modelo era tamanho 46. A jornalista me perguntou “por que que você escolheu esse ‘tema’?” E eu respondi “E por que não? Não entendi a pergunta”. Eu vou mais por esse caminho, tem coisas que, para mim, simplesmente não fazem sentido. Eu faço o que acho que tem que ser feito.

Como você se vê num futuro relativamente breve, daqui a cinco anos? O quer que se concretize?

Eu tenho algumas metas pessoais – e o meu trabalho não vai passar por cima delas. Não tenho o trabalho como uma meta final, já tive, mas hoje tenho algumas prioridades, como continuar morando perto dos meus pais, continuar conseguindo ver a minha família, ter um tempo de qualidade com o meu companheiro, ter uma vida em que eu consiga conciliar tudo isso. E eu sei que não dá para ter tudo, então eu tenho a meta de achar uma forma de conciliar essas coisas, mas não tenho um plano de, por exemplo, ter x lojas do tamanho de não sei o quê… Olha, pensando aqui, eu tenho um plano, na verdade, se eu puder, gostaria de estar com um projeto social em cinco anos – é uma meta de vida.

Enquanto mulher asiática, queria saber se você se sente contemplada na Moda. E também se você sentia falta de representatividade quando era adolescente.

Ah, sim, eu comecei a fazer terapia com sei lá quantos anos, porque eu achava que era um ET, eu tinha certeza, ninguém era parecido comigo e sempre foi a maior questão da minha vida. E hoje essa pauta continua me acompanhando, diariamente.

Eu sinto, falando daqui, totalmente de fora da sua realidade e jornada, claro, que as pessoas dão menos espaço para mulheres asiáticas, traços asiáticos, corpos asiáticos quando estão tratando de minorias.

Sim, é que o asiático é considerado branco, né? Ele veio para o Brasil para ocupar esse lugar, para “embranquecer o país” e tudo mais, então a gente fica naquele famoso meio do caminho: quando é para ocupar o lugar de uma pessoa branca, a gente é uma raça diferente, mas, quando é para falar sobre racialização, somos brancos. A gente realmente fica ali num limbo que é delicado, porque, quando você olha questões e camadas raciais, realmente o que as pessoas pretas vivem e viveram e o histórico delas é completamente diferente do nosso, mas a gente tem as nossas questões enquanto pessoas racializadas sim, e que não encontram muito acolhimento. Falando sobre a minha jornada pessoal, como eu já me resolvi desde criança, em terapia, em processo de autoconhecimento e tudo mais, e hoje sou resolvida com isso, sinto que é aquela história: sabe quando o avião está está caindo e você precisa colocar oxigênio em você primeiro para depois colocar na outra pessoa? Consegui colocar em mim e agora posso ajudar outras pessoas, só que ainda ainda tem essas questões, esses recortes, cada um tem a sua jornada. Mas é bem complexo, bem complexo.

Você pode se descrever para alguém que não te conhece fisica ou profissionalmente? Como você falaria sobre si mesma?

Claro! Eu sou uma mulher asiática, de pele amarela, tenho cabelo castanho escuro bem comprido, até a cintura, ele não é liso escorrido, tem algumas ondinhas e ele é bem, bem grosso. O meu rosto é redondo, a minha boca é fina, meu nariz é pequeno, os meus olhos são bem puxados e eu tenho a sobrancelha bem fina e arqueada. Eu tenho 1,58m de altura. Normalmente você vai me ver de roupas bem fluidas. Raramente você vai me ver de roupa justa. Normalmente eu vou estar de cores sóbrias. Eu também sempre vou estar com o pé de fora. Raramente você vai me ver de bota, nunca de tênis. Sou estilista, tenho um Atelier especializado em roupas sob medida e visto muitas noivas e artistas com figurinos artísticos. Por conta da minha ascendência, que é japonesa e coreana, ambas as minhas famílias são imigrantes. E eu sou capixaba. E tenho 31 anos!

Fotos: Carolina Vianna
Entrevista: Fernanda Meirelles