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Giovana Cordeiro

Giovana Cordeiro é atriz e mora no Rio de Janeiro, RJ.

Como está sendo para você ver a cena cultural voltando devagar a acontecer? Como foi vivenciar isso tendo abertura neste cenário, estando inserida nele? 

Passar por este processo me desafiou para que eu me colocasse em um lugar diferente. Tive a sorte de estar em um projeto que estrearia durante a pandemia, eu tinha o filme sobre o Magal ali na expectativa… Então, de certa forma, comparado a tudo o que tava acontecendo, eu me sentia assim: “beleza, isso aqui vai acontecer, vamos trabalhar.” Eu estava organizada e conseguiria tentar entender as coisas. E aí, artisticamente, foi amadurecendo por aqui uma uma independência, mesmo. A classe, num geral, teve que aprender a se produzir. E isso envolveu muita coisa, todo mundo tendo que se reinventar. Eu comecei a me pensar nesse lugar, da escrita, ou de pensar em produzir, chamar amigos para projetos… Foi muito bom artisticamente e eu me conheço mais fazendo isso, sabe? Participando de coisas com pessoas que são próximas… Estava pensando nisso ainda agora: a gente, num cenário um pouco carioca e até mais audiovisual, fica querendo ser visto por pessoas, querendo trabalhar com pessoas… Quando às vezes não pensamos no conjunto, em quem já caminha, em quem já pode agregar potencial junto com a gente. Ir para São Paulo foi muito bom por isso, porque as companhias são muito fortes, e eu vejo muitos amigos trabalhando em muitas destas companhias… Já não observo isso acontecendo aqui no Rio, os atores se organizando esse tanto para criar enquanto o audiovisual não está acontecendo. Tem, claro, mas o ritmo de São Paulo é inspirador. 

Faz sentido.

Todo mundo do elenco de “Erêndira” [peça que Giovana estrelou em 2019], por exemplo, estava envolvido em muita coisa diferente, e eu lá… (Risos) E “Erêndira” foi maravilhoso, aconteceu tudo muito rápido: fui fazer o teste, conversei com a produção, me mudei e fui morar em um hotel. Eu fiquei super solitária em São Paulo naquele momento, mas com o tempo fui criando vínculos, enfim.

Bom, digo que é inspirador porque fui para São Paulo, fiquei cinco meses e, perto da minha casa, do hotel onde eu morei, descobri muitas coisas – indo para o metrô, por exemplo, eu descia uma escada na Consolação e do nada tinha um sebo ali embaixo! Um lugar super jovem, super artístico, com todo mundo, muitos artistas trabalhando juntos… Acho que São Paulo tem mais isso. E tem um apoio, também. Aqui no Rio a gente ainda espera o audiovisual. Não estou falando do Rio como um todo, que fique claro, tem muita gente legal fazendo coisas por aqui. Mas, enfim, hoje eu já me penso fazendo coisas cada vez mais jovens, com pessoas que comunicam o que eu acredito. 

Furar a bolha do comercial deve ser uma experiência muito rica, poder trabalhar enquanto artista em todos os lugares, ter experiências nas novelas, em streaming, nos grandes palcos… Um belo privilégio do trabalho de atriz.

Sim. Eu reconheço muito mérito nas minhas conquistas, mas também entendo que as coisas aparecem com bastante surpresa, e aí eu vou aprendendo a lidar pelo caminho. A gente encontra inúmeros desafios artísticos e muitos desafios pessoais nas relações que construímos no ambiente de trabalho… O convite do trabalho comercial mora nesse lugar para mim, isso gera muito conflito, sabe? “Para onde estou indo?” Sempre tem muito a ver com a minha busca pessoal e artística do momento. É um lugar muito sedutor, sobretudo na condição que a gente está agora de artista, na pandemia, com o cenário financeiro. No meu caso, é um privilégio de certa forma poder escolher, mas também entendo que me organizei muito para que acontecesse e para que eu pudesse tomar certas decisões: “ok, isso agora não quero mais, entendi que desejo ir por este caminho”. E estou neste momento de amadurecimento. Mas é um conflito, sempre é.

Deve ser muito doido ver o audiovisual mudando tanto bem na sua frente, observando atores que estavam há muitos anos em longos contratos com televisão, por exemplo, decidindo caminhar para streaming, artistas muito jovens resolvendo fazer esta migração…

Comecei a trabalhar no audiovisual num período de muitas mudanças e fui acompanhando lá de dentro. Eu tinha acesso adiantado a coisas que poderiam estar acontecendo, afinal, você está ali dentro do Projac vendo-os construir novos estúdios e entende que o cenário está mudando, que as pessoas estão abrindo mão de seus contratos, indo para outros lugares, vê que existem testes rolando pra Amazon, pra Netflix, pro Globoplay… Você acompanha a mudança e pensa “o que eu vou fazer agora?”. O ator está sendo desafiado e colocado em locais com mais possibilidades, o que é muito bom artisticamente. E eu digo isso porque eu acho que a nossa geração… Você tem quantos anos?

31.

Você também pegou essa mudança, né? Lidamos demais com o que vem da internet, com tudo isso que é muito novo: como usar o Instagram, como usar a internet pra fazer as coisas? E a nossa geração, ela é, num geral, bem subestimada, cresci ouvindo que não fazíamos nada, “na minha época que era bom”, e nessa gente vai se desencorajando nas atitudes da vida, nas potências de mudança. Só que, olha só, nós viemos trazendo muita coisa nova, questionamentos políticos e ideológicos que estão mudando o mundo. Fomos nos empoderando para contar as nossas histórias e trazer olhares extremamente novos. 

Consegue me contar um aprendizado que você traz da rotina do trabalho audiovisual e da rotina dos palcos?

Eu trabalhei com dona Fernanda Montenegro na minha segunda novela, ela era a minha avó, e o meu elenco era eu, ela e o Lima Duarte por um bom tempo de novela. Ela gosta muito de dividir, de falar sobre o trabalho como artista de teatro, enche a boca pra falar disso. Desde a preparação até o encerramento da novela, com muita entrega, a Fernandona participava da preparação corporal todos os dias. Ela chegava e fazia tudo com o elenco mais jovem, ficava ali do início ao fim. Eu adoro essa minha memória. Então fui entendendo o que era ser artista em ofício. Logo depois fiz outra novela, “Verão 90”, e daí fui fazer “Erêndira”. Aí vou compreendendo qual é o lugar em que gosto de trabalhar: qual é o ambiente, qual é o jogo que você vai ter com os seus colegas de trabalho, qual é a sua postura ali, qual é a sua entrega, a sua dedicação, enfim.

É claro que tudo tem os seus desafios diferentes, mas a verdade é essa, tem sempre um lugar do trabalho vaidoso do artista, de se provar em alguma coisa, isso tem todo canto – e a gente lida com todo tipo de pessoa, o tempo inteiro.

Te vi trabalhando com o Marco França [ator e produtor musical] recentemente. Como está o seu processo musical hoje, como é sua relação com música?

Eu gravei uma música com o Marco França! Ele começou um projeto remotamente durante a pandemia, a pessoa mandava um vídeo e ele encaixava numa composição. O Marco me chamava e eu falava: ”calma, já vou, uma hora vai acontecer!” E aconteceu no presencial, foi muito bom! Ele carrega muita bagagem, é uma pessoa muito rica artisticamente. Ele generosamente disse que acreditava, então vamos lá, fomos e gravamos uma música! Você me perguntou como é que está a minha relação com música, bom, a minha carreira está há alguns dias acontecendo (risos). Ok, a minha carreira nem tanto, mas o filme sobre o Magal também veio de certa forma me desafiando e eu tinha muita insegurança com canto, muita. Sempre gostei, mas travava! Lembro que fiz um teste para um musical e paniquei, cantar é difícil demais, terror e pânico, estou tratando na terapia! (Risos). E aí é isso, estou cantando agora e lançando para o mundo, vamos ver como acontece.

Me conta um assunto que você gostaria de conversar com a Giovana de fevereiro do ano passado, que não passou por uma pandemia mundial, e com a Giovana que acabou de começar o primeiro grande trabalho profissional.

Talvez seja a mesma Giovana, porque em fevereiro eu estava gravando “Carnaval”, meu primeiro longa como protagonista para a Netflix, então… Eu diria: “Calma! Não apavore!” Acho que em “Carnaval” eu fiz um trabalho bonito, mas até falei sobre isso hoje na terapia, (risos) sobre como eu vou me responsabilizando por tudo, por tomar as coisas para mim, e eu tomei “Carnaval” para mim, como se eu conseguisse resolver tudo… na minha cabeça, num mundo que a gente constrói, né? Eu falaria para a Giovana ir com calma, aproveitar, se divertir. Eu me diverti bastante, mas eu acho que eu ainda preciso ter menos ansiedade, porque sempre fica tudo bem.

Pensando um dia intenso de trabalho, você consegue me dizer qual é o momento mais gostoso desse dia cheio e qual é o momento mais desafiador? 

Acho que todas as vezes em que tive tanto vulnerabilidade quanto disponibilidade para perceber o presente, fui muito feliz artisticamente no trabalho. Esses momentos às vezes duram uma peça inteira, às vezes uma cena, às vezes uma fala, e você pensa “yes!”, é pra isso, essa é a procura… E a dor… Acho que é conseguir segurar energia. A gente trabalha se expondo o tempo inteiro – e até quando no lugar do trabalho mais comercial, ainda é você ali, a sua cara, o seu nome, você se expondo de alguma forma. Então tem sempre estes desafios entre o que você deixa te afetar e o que você tem que aprender a lidar para continuar se permitindo ser vulnerável naquele espaço… e com autoestima, eu diria (risos).

Beleza: Marcela Queiroz, Santa Maquiagem

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles