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Vinicius Calderoni

Vinicius Calderoni, dramaturgo, diretor, ator e músico da banda 5 a Seco, é de São Paulo (SP).

Fiz faculdade com o Pedro Viáfora, seu companheiro de 5 a Seco, e acompanhei o grupo começando a acontecer, fui ver vocês tantas vezes! Mas só soube sobre a sua companhia de teatro, a Empório de Teatro Sortido, algum tempo depois, quando uma amiga me mostrou uma matéria que saiu em um jornal com um título esquisito – que parecia um erro! 

Sim! Eu achei aquilo genial! Era “Aqui vai um título grande e complexo”. Eu não acreditei quando vi! E é engraçado porque nossos títulos nem são tão grandes e complexos, só o nome da companhia… (Risos) Achei muito bom!

Me formei há um ano no [Teatro Escola] Célia Helena e não sei o quanto você tem dimensão disso, mas você já é uma referência nas aulas: a sua linguagem, o tipo de texto que você escreve e o seu trabalho como diretor.

Nossa, me conta mais, não sei de nada! Estou meio chocado com isso, já tem montagens nas escolas. Teve uma agora no Célia, de “Os Arqueólogos”, e fiquei: “o quê? Ninguém me avisou? Eu queria tanto ter visto!” Aí fizeram “Ãrrã” no Indac no meio do ano passado, acho que vai ter “Chorume” no Tablado lá no Rio… Mas acho que isso, na verdade, é uma derivação muito clara da publicação. Claro, reconheço que tem alguma importância na linguagem, que toca em algum lugar, e acho também que são peças muito favoráveis para os cursos, porque foram levantadas com poucos atores, mas dão margem para montar com uma turma de 20 pessoas.

Ah, parabéns pelo prêmio APCA [de Melhor Dramaturgia, por “Elza”]!

Obrigado! Fiquei muito surpreso. Fiquei chocado. Mas foi ótimo, foi lindo. Você assistiu a “Elza”?

Assisti! Achei a [atriz] Larissa Luz arrebatadora. 

Ela é maravilhosa, é uma gênia. E é co-criadora, escreveu e ajustou um monte de coisas, interferiu diretamente no texto, na direção, é uma artista muito gigante, completa e líder. E é engraçado, porque tem isso de que ela é a única que mimetiza a Elza, né? E ela é perfeita, faz o que quer com a voz, com expressão, corpo… É realmente uma destas artistas que só a Bahia faz! Pessoa sem limites em termos de performance. De uns tempos pra cá, algumas vezes eu e a Duda [Maia, diretora do espetáculo] ficávamos até um pouco implicantes, achávamos que às vezes era muito – porque ela tem tanta facilidade e imita tão bem que você fica concentrado demais nisso, no “nossa, é idêntico!”, e eu acho que é legal o lugar em que ela chega, mas sentia que uma ou outra vez ficava muito fixado nisso, porque é uma sedução difícil para o ator, né? Se você consegue, se você acessa esse lugar, como não vai querer fazer, sabe? Aí você vai achando que quanto mais parecido for, melhor, e não necessariamente. Às vezes a construção justamente é poder deixar próximo, familiarmente conectado, mas não em cima da coisa, senão funde figura e fundo e você não sabe mais o que é o quê. Mas é isso, a gente falava “incrível, impressionante, mas talvez possa ter uma gotinha a menos”. E ela concordava, dizia que podíamos ir dosando. Acho que chegou a uma medida muito expressiva. Ela é gigante. Todas [as sete protagonistas] são maravilhosas!

A conjunção de coisas ali… A luz é um absurdo. A Duda é foda demais, o texto é bom, as atrizes são incríveis…

E a equipe é amorosa, unida, feliz, é um negócio sem precedentes. Já tivemos 55 mil espectadores e acho que continua por pelo menos mais um ano! É um espetáculo que tem pano pra manga, né? E eu tinha muito medo de que ele se esvaziasse um pouco por causa do contexto político.

Você já parou para pensar no quão legal é ser você? Porque parece ser muito legal.

Olha só, ontem eu estava em um dia bem merda e passou pela minha cabeça essa sensação, será que as pessoas me olham e acham isso? Cara, tentando ponderar, sem parecer leviano, acho que realmente faço muitas coisas que amo, tive a felicidade e a sorte de ser reconhecido por uma parte significativa delas e tenho consciência do quão difícil é. Penso todos os dias em fazer jus a isso. Por outro lado, sinto que as expectativas se movem à medida em que os caminhos se abrem, e a minha sensação é de estar permanentemente insatisfeito. Dificilmente tenho a fruição de dizer “nossa, quanta coisa legal”. Ainda acho que consigo mais hoje do que antes ter alguns destes momentos, mas a razão para não deitar nestas conquistas legais que acontecem tem a ver com duas coisas: tem um lado bom, bonito, que é ser uma pessoa feliz nos processos. Gosto de estar fazendo, tenho amor pelas ideias e pelo desenvolvimento e isso faz com que eu me sinta mais vivo, mais do que o próprio reconhecimento. O dia a dia do trabalho genuíno, de procurar significados e inventar sentidos e caminhos talvez seja o mais bonito e é muito central para mim na vida.

Por outro lado, tem um nível de exigência e autocobrança meio matador, meio violento. Ontem mesmo eu senti que tinha marcado muitas coisas, uma pendência em cima da outra, parecia que não ia conseguir fazer nada. Fiquei meio atordoado. Em alguns momentos, essa própria inquietude permanente faz você ficar procurando o que está errado – e somos pouco condicionados a ter um olhar panorâmico e dizer “esse dia vai ser meio cagado, mesmo”e tudo bem. É bem sofrido isso de ter um sarrafo alto interior. Acho que essa é uma questão e estou tentando entender como pode não interferir tanto na minha saúde e nos meus hábitos.

Ainda mais quando você está envolvido em várias atividades artísticas, televisão, música, turnê, peça, direção, atuação, a temporada longa de “Os Arqueólogos” no final do ano passado…

Sim! Foi uma retomada! A gente ama essa peça, brincamos que é a nossa “A Alma Imoral”, vamos ficar fazendo por 20 anos! (Risos) É um espetáculo que prescreve menos, um pouco menos condicionado a um momento histórico específico, tem um olhar panorâmico que serve e acho até que, em momentos de aumento de intolerância, como o que a gente está vivendo, ela ganha mais sentido, porque fala sobre empatia e alteridade.

Você tem uma atividade artística favorita – ou em algum momento da vida acha que teve?

Não, acho que as coisas se alimentam pela alternância. Eu realmente amo muito tudo o que faço, então sempre fui de falar bastante desta coisa do “descanso ativo”, sabe? Descanso da música no teatro, do teatro no cinema, do cinema na música…

Que maravilhoso poder fazer isso, né!

É! E a cabeça continua rodando. Mas acho que isso era mais verdade uns anos atrás: hoje em dia eu preciso descansar de tudo, mesmo. (Risos) E ainda bem, sinal de saúde, mas, no geral, sinto que não tenho uma atividade favorita assim, deliberadamente, talvez tenham períodos em que alguma coisa está mais visceral: o teatro começou na minha vida em 2014 e, durante uns dois, três anos, foi algo muito central, mais do que a música, mas certamente as coisas já se reequilibraram, porque depois voltei, o 5 a Seco gravou um disco novo… O que eu acho que é central para mim é a palavra, a escrita, sem dúvida. E mesmo como compositor: quando componho, raramente a melodia é minha e a letra de outras pessoas, quase sempre a letra é minha também, então a palavra é um lugar de acesso comum a todos estes lugares. Mas é isso, não existe uma atividade favorita porque alterna. Agora, por exemplo, estou me encaminhando cada vez mais para a escrita para cinema. Estou escrevendo dois roteiros de longa-metragem.

Que foi o que você estudou, certo? Cinema? O que você já fez nesta área?

Isso, me formei em Cinema! Como roteirista, fiz agora um filme com o [amigo e também diretor da Empório de Teatro Sortido] Rafa Gomes, que acabamos de filmar, se chama “Meu Álbum de Amores”.

Com o Gabriel Leone e a Carla Salle, certo?

Sim! E fiz também um que se chama “45 do Segundo Tempo”, é um filme do Luiz Villaça que eu escrevi com o Léo Moreira e com o Rafa, depois entrou a Luna Grimberg, que também é minha parceira e escreve um monte de coisas, mas ela mudou muito do roteiro, então nem sei se vou ser creditado! E escrevi também o programa da Júlia Rabello lá no GNT, o “De Perto Ninguém É Normal”. E lá atrás, quando me formei, fui montador de um curta, “Os Sapatos de Aristeu”, que foi super premiado, foi o meu TCC! Então de fato não fiz muita coisa, mas estou voltando! Estou escrevendo um projeto com a Julia Rezende, que é uma diretora lá do Rio, e um projeto com o Gregório Duvivier em parceria, mas este ainda nem se sabe quem vai dirigir, é um desenvolvimento dentro daquele edital de Núcleos Criativos da Ancine.

Talvez logo, logo o cinema vai virar uma prioridade. E é isso, mais pra frente quero escrever um romance, mas não sinto que é o momento, talvez nem tenha a disciplina necessária para estas coisas, preciso de um fôlego maior. Só que eu também não achava que tinha para o teatro! Foi uma descoberta chegar a isso, porque é difícil, é construção: “não sabendo ser impossível, foi lá e fez.”

Legal saber disso.

Tenho também muita coisa de teatro no horizonte. 2018 era para ser um ano sabático no teatro, porque depois de “Chorume”, achei que as coisas estavam começando a se repetir. “Chorume” foi um processo muito desgastante, muito duro, esse foi o auge do sofrimento, do dilaceramento de saúde… Era uma peça que tinha estreia marcada no Sesc, publicação em andamento, os atores em sala de ensaio… e não tinha o texto. Não é que eu não escrevia nada ou estava bloqueado, eu escrevia e não gostava! Descartei muita coisa. Aí fui pensando neste título, Chorume, entendi que tinha que lidar com os meus próprios descartes e isso não era só um modo de feitura da peça, era um assunto dela, um dos temas.

“Elza” estava acontecendo há muito tempo?

Então, “Elza” era um projeto que seria escrito e dirigido pelo Rafael [Gomes], quase uma derivação de “Gota d’Água [A Seco]”. Quando ele me contou, falei: “Nossa! Você vai ser muito feliz fazendo isso!” Aí, no final de 2017, o Rafa ligou e disse, “cara, eu tenho dois longas para rodar e mais um para finalizar. Não vai dar pra fazer tudo” e eu estava com uma ideia de escrever a peça em versos, meio rimado, aí ele me chamou para escrever junto. Achei perfeita essa coisa de dividir um pouco os pesos e as responsabilidades, ainda mais com o Rafa, que é um dos amores da minha vida, meu parceiro, a pessoa com quem tenho uma companhia há quase nove anos. Era o melhor dos mundos! Fora o prazer de fazer junto, a rotina de se encontrar… Ficou assim.

Em janeiro de 2018, ele me ligou e disse pra gente encarar os fatos: não ia dar para ele. Falei com dor no coração que ele tinha razão, também porque talvez isso significava que eu não faria, já que o meu convite estava atrelado ao dele. Pedi para o Rafa avisar a produtora que, se continuassem me querendo, eu queria, mas que, se não fosse o caso, tudo bem. Aí eu fiquei e entrou a Duda Maia na direção! E, cara, não poderia ser diferente: como essa peça não seria dirigida por uma mulher, sabe?

Eu sofri muito depois de um certo tempo, porque a gente vai se educando e percebendo algumas coisas. Depois que já estava fechado e já tinham começado os testes de elenco, concluí que era uma autora negra que deveria escrever aquela peça. Fiquei realmente em crise. Quando terminaram as audições, chamei a Duda e a [produtora] Andréa Alves e falei, “gente, vocês não querem chamar a Grace Passô, não sei? Ela é tão genial. Sinto que talvez eu esteja tomando um lugar aqui e justamente agora seja o momento de dar este lugar.” E elas disseram que não, que a peça tinha preocupação com a representatividade, são sete atrizes negras em cena, e queriam sim que eu conduzisse, queriam a minha visão da história. Eu aceitei isso naquele momento, mas não sem me angustiar, sem pensar nisso.

Imaginei mesmo que tivesse acontecido algo assim com você, porque o espetáculo é uma avalanche feminina.

Eu perguntei se não queriam chamar alguém para escrever comigo, talvez, mas ambas concordaram naquele ponto. E daí isso me fez pensar, porque teria que ser uma preocupação minha conseguir que fosse representativa, porque todas as palavras da peça tinham que ser encarnadas, em nenhum momento poderia haver um desnível. Achei que tinham alguns parâmetros centrais para edificar o trabalho: o primeiro, que falei para as atrizes logo que a gente se encontrou, era que não existia palavra sagrada naquele texto. Queria que elas questionassem qualquer coisa e, se houvesse incômodo ou não coubesse, seria mudado ou a gente pelo menos discutiria sobre os critérios para chegar a algum lugar. E assim foi. Eu pedi que elas assinassem como colaboração dramatúrgica, porque sinto que têm este lugar.

Ao mesmo tempo, procurei ler e me encharcar de várias tantas extraordinárias pensadoras negras, brasileiras ou não, que poderiam falar através da Elza, como a Maya Angelou, a Angela Davis, a Conceição Evaristo, a Djamila Ribeiro, a Carolina de Jesus, várias mulheres extraordinárias que têm um lugar de fala genuíno absolutamente único. Fui lendo e colhendo muitas coisas delas e da própria Elza em entrevistas que assisti. Achei que esse era um caminho para garantir uma representatividade e me deixa muito feliz perceber que não foi um entrave, sabe, para a fruição da peça, e eu acho que mais do que isso, a briga que a peça compra está clara. É uma peça feminista negra. Nunca vou deixar de ser um homem branco escrevendo uma peça sobre uma mulher negra, nunca, mas é possível que seja uma peça feminista negra. Foi essa a descoberta ao longo do processo.

E o resultado é lindíssimo. Mas entende-se o questionamento porque sim, porque estamos agora vivendo o momento que estamos vivendo. E é bom que a gente converse, entenda, que isso seja discutido em todos os lugares.

E até que uma nova coisa se estabeleça, é muito importante que a gente viva isso, passe por isso.

Pensando na sua linguagem, na sua forma de construir textos em um cenário em que você já é referência no teatro contemporâneo do Brasil, como você se relaciona com o que escolhe escrever e com o Realismo? “Elza”, por exemplo, poderia ser uma montagem realista, mas passa longe disso. E você escreve muito sobre cotidiano, né.

Sim, sim. Eu não rechaço as coisas de antemão, não digo que o Realismo não é capaz de produzir obras de impacto e força. Pelo contrário. Dois exemplos de peças essencialmente realistas recentes incríveis: “Conselho de Classe”, do Jô Bilac, uma peça totalmente realista com apenas um elemento absurdo, e “12 Homens e Uma Sentença”, do Grupo Tapa. Vai dizer que aquilo não é muito eficar e mobiliza, resulta? Então assim, na verdade, a minha sensação é: não me desinteressa, mas sinto que naturalmente o meu tipo de sensibilidade e de percepção do mundo não é reproduzida dentro destes moldes, desta “norma” do Realismo. Mas tem a ver com as coisas que eu escrevi até agora, também não quero assinar um contrato que me obrigue a desenvolver desta maneira sempre.

A minha trilogia [de peças, “Placas Tectônicas”] fala muito sobre estes acúmulos, cenas da realidade, sobre este jogo, esta dinâmica, e sobre o que o teatro pode, que, na minha visão, é muito mais do que o Realismo. Tem o lugar do teatro que é milenar, mas que continua sendo extremamente vanguardista: o corpo e a voz de um ator te levam de qualquer lugar a qualquer lugar, sem escalas, e esta é uma possibilidade tão extraordinária que parece triste que fique pouco explorada! Então, na verdade, as coisas que faço têm a ver com os meus próprios interesses como espectador. Eu faço o que não me entediaria, tento fazer uma coisa que me mova. Quero poder ser, como criador, alguém que melhora a vida de quem assiste. Mas se a gente falar de “Não Nem Nada”, ironicamente a minha peça mais fragmentada, a mais veloz, praticamente todas as cenas se estabelecem a partir de um chão realista. As cenas começam num certo lugar familiar e de repente se subvertem. Para mim, é uma peça de estranhamento do mundo, a ideia de que a vida é meio sonho, meio pesadelo, meio comercial de banco. (Risos) 

Acho que a minha questão é como contar, o que também incide sobre “Elza”. Quando a Andréa me chamou, falei que tinha muitas ressalvas – para ser delicado -, com quase todos os musicais biográficos que eu vi: dava vontade de sair correndo chorando na chuva. Eles ficam verticalizando e te contando uma coisa com um jeito meio didático, tudo para não dar trabalho ao espectador, como se ele fosse uma criança sem recursos. Eu queria muito fazer alguma coisa que não parecesse com um musical simples. Aí elas deram a ideia das sete atrizes negras, que foi o meu passaporte para a felicidade, porque aí, obviamente, não poderia ser realista. Pronto, acabou o problema.

E muito do jeito que se escreveu “Elza” teve a ver a Duda Maia, que tem uma forma muito específica de abordar a palavra. Eu não escrevi um tijolo de texto, mandei e falei “obrigado, estou indo para as Bahamas, me liguem quando estrear”. Escrevi 25 páginas, para dar um chão comum e sentir como ela trabalharia com aquele material. A Duda é uma coreógrafa, então o tempo inteiro ela vê pelo movimento, fala: “Esta frase tem que ser um pouco mais curta, porque vai precisar deste e deste movimento”. Ela ia me dando os problemas e eu trazia as soluções.

Que animal. Quase uma costura, né!

Totalmente.

Você consegue pensar em duas peças que assistiu e pensou “como eu queria ter feito isso”?

Tem uma que é certeira: “O Que Diz Moleiro”, do Aderbal Freire Filho. O tempo inteiro você via a engrenagem viva do teatro. Eu me apaixonei por teatro com uns 10 anos de idade! Quando me interessava por uma coisa, ia pesquisar muito a fundo: com uns quatro anos, passei a gostar muito de cinema, aí sabia quem tinha feito todos os filmes de James Bond. Aos sete anos, comecei a gostar de futebol e sabia todos os artilheiros de todas as Copas do Mundo. Com nove para dez anos, comecei a gostar de teatro. Eu sabia todas as lotações de todos os teatros…

Mentira! 

Até hoje eu sei as antigas lotações! Eu lia os números nas revistas de programação de São Paulo. Enfim, fiquei muito interessado, muito maravilhado. Depois veio o Ensino Médio, a música, comecei a compor… E, com uns 19 para 20 anos, vi “O que Diz Moleiro”. Foi uma convocação muito decisiva no sentido de “bom, aconteça o que acontecer, isso é uma questão na sua vida, você não vai passar sem fazer isto”. Qual mais…

Você viu “Odisseia”, da Cia Hiato?

Não vi e me dói, eu ia no último dia e fiquei doente! Aliás, “O Jardim”, da Hiato, é uma peça que acho magnífica, vi quatro vezes. Histórica! São tantas peças… Muitas coisas me impactaram demais. Vi uma montagem de “Our Town” em Nova York com o Michael Shannon, aquele ator que faz o vilão em “A Forma da Água”, e acho que foi o maior carisma que eu já vi, a maior força magnética que um ator exerceu sobre mim na vida! Eu não o conhecia direito, não sabia muito quem ele era, mas fiquei chocado com o nível de limpeza, comunicação e inteireza. Muito foda, muito marcante.

Posso escolher mais? “Se Uma Janela Se Abrisse”, do Tiago Rodrigues, um autor português que é o meu dramaturgo favorito no mundo, mudou a minha vida completamente. Outra que eu pensei é “Isso te Interessa?”, do Marcio Abreu, uma obra-prima. Acho que é um dos maiores textos de teatro. E, recentemente, eu diria “Colônia”, que concorreu comigo ao APCA – e eu nunca não votaria em “Colônia” (risos), é um dos melhores textos brasileiros do século. Acho que foi o espetáculo mais forte que vi em 2018. É um estado de graça! Tem também “Buraquinhos”, do Jhonny Salaberg, um menino de 23 anos! Muito foda também: um menino negro de periferia que fala sobre genocídios de populações negras e é um texto de uma poesia bizarra.

Durante muito tempo, eu fui um espectador profissional, via mais de 100 peças por ano. Foi o momento em que estava mais viva a construção de linguagem para mim. Não à toa, foi quando escrevi “Não Nem Nada”. Aquilo tudo era uma alimentação!

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles