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Aíla

Aíla é cantora e compositora. Nasceu em Terra Firme, Belém (PA).

Quando foi que a música entrou na sua vida e quando você decidiu que música e política caminhariam juntas?
Na verdade, meu sonho era ser diplomata! Nasci em um bairro chamado Terra Firme, na periferia de Belém. É o mais populoso de lá. E nunca foi muito fácil a minha vida, a minha mãe me criou solteira e eu tinha como foco fazer universidade.

Você tem irmãos?
Tenho por parte de pai, alguns. Eu entrei em Letras em uma universidade pública, a Estadual do Pará [UEPA], me formei e, paralelamente aos estudos, queria, além de estagiar, ter uma outra grana para ajudar a minha mãe, e uma coisa da qual eu gostava era cantar! Cantava na escola desde pequena, o meu avô tocava violão muito bem, meus primos davam aulas de canto, então tinha um círculo de músicos por perto, mas nada muito profissional, às vezes as pessoas tinham duas profissões, não chegava a ser uma referência. E, na faculdade, o meu bloco de Letras era do lado do bloco de Música, então eu acabava meu curso e ia para lá fazer festas com a galera, montar palcos…

A noite de Belém também foi uma escola, comecei a tocar fazendo cover de Marina, Vanessa, Arnaldo, Mutantes. Fiz isso por uns dois ou três anos, tocava de terça a domingo, além de estagiar e fazer faculdade! Na noite de Belém conheci compositores que representavam o Pará, de uma geração mais antiga, e eles me convidaram para participar de festivais competitivos de música. Fui participando e conhecendo pessoas de outros estados, do Amapá, da Amazônia, e comecei a ter um repertório de compositores da Amazônia bem grande, quando vi, tinha, sei lá, umas 300 músicas! E pensei: “Cara, posso fazer um disco!” Não eram músicas minhas, mas resolvi fazer o disco! Isso foi em 2010. Então comecei a pensar no álbum, que é muito a cara do Pará, romântico, fuleiro, fala de coisas tropicais, tem muito carimbó, lambada, guitarrada… E em 2012 lancei este disco, o “Trelelê”. Ele chegou aqui no Sudeste, deu uma circulada legal e, quatro anos depois, senti que algo faltava. Sempre fui muito ativista na universidade: fui presidente do meu Centro Acadêmico, ia para Brasília brigar por recursos para a minha universidade, me envolvia com o pessoal da UNE…

Que legal, você foi presidente do CA da faculdade?
Fui, por dois anos! Sempre estive politicamente envolvida e engajada em alguma coisa, mas isso não fazia parte do meu primeiro disco por algum motivo. Aí decidi que queria fazer política com a minha arte, precisava disso, queria fazer uma revolução, mesmo. Comecei a compor e a primeira música foi a “Rápido”. Eu já estava morando em São Paulo nessa época.

Por que você quis vir para cá?
Pois é, eu costumava vir a São Paulo vez ou outra, ficava na casa de amigos e achava que São Paulo era “o mundo todo”, eu encontrava todo mundo aqui, o que era muito interessante para mim, que trabalho com arte. Ficava instigada: “será que consigo morar em São Paulo?” Era desafiador para mim, não tinha ninguém que apostaria nisso, “vai, Aíla, que eu banco a parada”, não! Então vim quando o projeto do meu segundo disco [“Em Cada Verso Um Contra-Ataque”] passou no edital da Natura. Pensei: “Bem, é o momento de ir para São Paulo e construir esse disco por lá.” E foi bem legal, conheci vários compositores de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, comecei a compor… São Paulo me inspira muito para escrever: apesar de ser meio caótica, me traz inspiração política, artivista, e consigo escrever sobre o agora! Depois de “Rápido”, fiz uma música com a Dona Onete, que fala sobre a questão de gênero e amores livres, “Lesbigay”, depois fiz outra sobre assédio sexual. Fui construindo o repertório do disco a partir de um conceito, que era fazer o povo dançar muito, cantar alto e refletir. Um disco pop e político! Chamei o Lucas Santtana para produzir, que é um cara super posicionado, engajado, e ele disse “Aíla, cadê o repertório?” e eu falei que não tinha, que só tinha umas três músicas. (risos) Ele falou que normalmente o artista montava o repertório para depois fechar o conceito.

O seu caminho foi outro!
Eu falei que o conceito seria político. Que falaria sobre racismo, feminismo… Fui atrás do Chico César e nem o conhecia! Teve uma feira orgânica no Parque da Água Branca, cheguei lá, show do Chico César, todo mundo cantando, lotado. Faltava uma música para fechar o disco e eu queria falar sobre racismo, mas sou branca, não podia escrever essa música. Entrei na fila do camarim e conhecia o motorista dele, que me levou uma vez para um show no Sesc, no interior. Ele me colocou para dentro e falou “Aíla, entra que tu vai ser a primeira, quando o Chico descer do palco, tu já fala com ele”! Aí o Chico desceu e eu lá, ele nem sabia quem eu era e falei: “Oi Chico, tudo bom, sou a Aíla, cantora e compositora de Belém do Pará, estou fazendo um novo disco, o seu último saiu pelo projeto da Natura também, o meu foi aprovado…” E criei um “elo” para tentar pedir uma música, né? (risos) Aí ele “poxa, que legal, mas para quando é?” e falei que precisava para dali uns 15 dias. Ele disse que não dava, que estava muito em cima. Pô, o Chico tem encomenda da Maria Bethânia, da Daniela Mercury, quem era eu? (risos) Falei que tudo bem, mas troquei uma ideia com ele, o adicionei no Facebook, conversamos, mas nunca imaginei que ele me mandaria nada, até porque o prazo era apertado.

Um dia, de manhã, chega um áudio dele no Facebook. Ele escreveu “olha, dá o título que tu quiser para a música, tá aí, é tua” e dei o play… Maravilhosa a música, ele dizia “para melaninar o planeta, meta, meta, melanina. Melanina é a meta. Concordar, com cor dá”, sempre fazendo umas analogias, era foda a letra! Aí eu gravei e chamei de “Melanina”. Pô, foi demais, porque tudo o que eu queria dizer estava lá no disco, sobre feminismo, questões políticas, e ao mesmo tempo era muito dançante, tinha lambada com eletrônico, punk rock com guitarrada… e tem essa onda do disco, eu o considero de rock, mas não pelo ritmo, pela postura. Estava ouvindo muito As Mercenárias quando vim para São Paulo, que é uma banda de mulheres da década de 80, só punk, com letras bem curtinhas que me inspiraram a começar a compor! Escrevia pensando em letras curtas que passassem o recado. Tentei trazer um Pará que cutuca mais, da periferia, tem uma cena de rap lá que a galera não conhece – as pessoas conhecem um Pará dançante e tropical.

As suas raízes são muito fortes para você, né? Você sempre fala sobre elas, sobre a sua origem…
Sim. Apesar de ser uma branca nascida na periferia, e entender que isso me trouxe certos privilégios, eu passei por muitas coisas difíceis na vida, morei em uma casa que era metade de madeira, metade de barro, eu e minha mãe, essa casa ainda existe! Acho que este segundo disco me reflete muito, não que não goste do primeiro, eu o adoro, mas é outro processo.

Fazer um disco escancarando a sua postura política é um ato de bravura. Acredito que muitos artistas têm vontade de fazer isso, mas desistem por interesses comerciais ou por achar que não vai rolar… porque incomoda muitas pessoas. Como você se relaciona e conversa com essa coragem?
É, eu sempre me indago. E falo com a equipe que trabalha comigo, com a pessoa que vende os meus shows… “Poxa, será que eu faço isso? Não vou perder um monte de apoios?” Aí a pessoa me fala: “Olha, acho que você vai perder, sim.” Mas aí vou e faço. (risos) Eu peço opiniões, ouço todo mundo, mas no final o que me move é aquilo em que acredito. Talvez seja um problema, mas é o que me traz felicidade!

Não é um problema! Quando a arte não transforma…
Não vejo mais sentido em fazer um disco que não seja político. Mas ao mesmo tempo em que tenho essa preocupação, também quero que seja pop, gosto de pensar na imagem, no figurino, na foto, no conceito. Gosto de reunir a galera para pensar comigo e acho que essa preocupação com estética é mais do mercado pop, o pop americano tem muito disso, a Beyoncé hoje é muito política, uma ativista negra.

Botar o teu bloco na rua, fazer arte e falar o que você quer é um privilégio.
Quando a gente fala que uma música é ativista, logo imaginam que é cabeçuda e chata, sem refrão, que não gruda… Eu pensei nos arranjos do disco, junto com a banda, para grudar na cabeça, para a galera sair cantando e depois parar para refletir! (risos) Eu me preocupo com isso, o lançamento deste disco em São Paulo foi no Teatro Oficina, que para mim é um espaço de resistência, do Zé Celso. Lembro que, na época, um jornalista me disse: “Você consegue dialogar com a minha mãe – e eu não consigo falar com ela sobre política.” Achei isso muito louco, porque é com pessoas como a mãe dele e a minha mãe com quem quero dialogar. Minha mãe, quando ouviu o disco, falou “é diferente, né? Do primeiro?” (risos) Mas ela entende tudo e hoje explica para as pessoas sobre os assuntos dos quais o disco fala, entende sobre questões de gênero, feminismo… É por estas pessoas que quero fazer música pop, que é um canal para chegar nelas!

Fazer música sobre o “agora” é algo muito seu, né?
Acho que qualquer arte pode falar sobre o agora, inclusive tenho vontade de fazer teatro, tipo de resistência, como o do Zé Celso, que ainda resiste, mas acho que quando a gente consegue aliar o teatro com a performance, as artes visuais, a moda e a música, tudo num espetáculo só, isso é foda! Quando me perguntam o que sou, acho que dizer “cantora” acaba sendo pouco, não quero ser uma cantora brasileira sexy das capas de revista. As cantoras brasileiras tiveram por muito tempo esse estereótipo e acho que essa nova geração quebra um pouco isso. Você tem a Karina Buhr, a Ava Rocha, a própria Tulipa, e essa galera vem quebrando tudo, “nós somos isso aqui, estamos fora do padrão que vocês querem, falamos sobre tudo e também fazemos dançar, somos pop”! Não tem que ter essa cobrança em cima da cantora, como se quem subisse no palco tivesse que ser gostosona, porra, esse é um machismo escroto – e acho que todas as regiões do Brasil têm as suas representantes, cantoras que não se preocupam em “estar bonita para subir ao palco”, mas sim em subir no palco e fazer um grande espetáculo.

Pense que estamos em julho de 2018, a um ano de hoje. Que notícia você gostaria de ler sobre o Brasil, sobre o mundo e sobre a sua carreira?
Várias notícias sobre o Brasil! Queria na capa da Folha: “Corja Pmdbista Presa” Todos eles! (risos) Para o mundo, cara, acho que vivemos muitas guerras… Estudamos a Primeira Guerra Mundial, a Segunda, achando que estamos ótimos, e na verdade existem muitas outras acontecendo. Queria ler uma notícia que dissesse que as pessoas não se matam mais por causa de propriedade, de terra, ou religião, que também causa tanto caos. Seria foda! Agora, sobre a minha carreira, eu gosto de não criar muitas expectativas, mas queria que saísse uma notícia assim: “Aíla continua fazendo transformações e micro-revoluções através da sua arte”, sabe? Quero estar movimentando através de questões que motivam a liberdade das pessoas, os amores “impossíveis”… Queria muito poder transformar e causar essas pequenas revoluções ao meu redor, no meu país!

Sobre inspirações: escolha uma parceria que você sonha em fazer um dia e uma música de alguém que, quando você escuta, tem muita vontade de ter feito aquilo.
Nossa! Uma parceria… Cara, tem um sonho que eu acabei de realizar, ser parceira da Dona Onete, que para mim é a rainha da Amazônia e do Brasil, uma senhora que começou a compor com 60 anos – ela decidiu ser cantora e pronto e, para mim, é uma das maiores compositoras do Brasil. Nós temos uma música juntas agora, o que é um sonho! Mas também tem um cara de quem já canto uma música e sou muito fã, que movimentou a Paraíba, um grande artista pop político, que é o Chico César, queria muito cantar algo com ele, seria foda – estamos nos aproximando e acho que um dia pode ser que role! Sou fã, ele representa o interior do Nordeste, o que me move muito, ele é muito coerente! Sobre as músicas… Preciso responder agora? (risos) Cara, tem uma que eu acho incrível e que queria muito ter feito, que é do Negro Leo, dessa nova geração, está no disco da Ava, chama “Auto de Bacantes”. É foda essa música e o considero um dos grandes compositores contemporâneos do Brasil. Tem um outro cara de quem sou muito fã, o Posada, só que dele eu gosto de umas 20, queria fazer um disco “Aíla canta Pousada” (risos), ele é muito incrível!

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles | Beleza: Carolline Lopes