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Thiago Pethit

Thiago Pethit, cantor, compositor, intérprete e ator, nasceu em São Paulo (SP).

Onde você fez Artes Cênicas?
Fiz Célia Helena. Me formei lá, fiz o curso técnico profissionalizante. Mas falo que me formei na vida, porque trabalhei muito com teatro.

Eu estou lá! Faz um ano. Faço o técnico também.
No Célia? Que ótimo! Que gostoso. Me formei em 2001.

Que legal! Bom, comunicar e trocar com as pessoas através da arte, ao mesmo tempo que é um presente, é quase uma sina, né?
É. (risos) Eu diria que é uma sina, mas acho que tem dois aspectos: se você realmente está disposto a não só comunicar, mas trocar, mesmo, você tem que receber tudo o que vier, tanto as coisas boas quanto as ruins ou desagradáveis. Eu, por exemplo, sou super curioso: logo que lanço um disco, busco o meu nome no Twitter para ver o que as pessoas estão dizendo. É lógico que não é sobre levar para o lado pessoal, é sobre estar interessado em como estão recebendo o que você está comunicando. Ao mesmo tempo, sinto que é uma espécie de sina no sentido de karma, uma necessidade e, hoje em dia, depois de muitos anos de terapia e de trabalho como artista, já consigo até nomear essa necessidade de várias maneiras. Sinto que a arte foi, quando eu era muito novo, o jeito como eu consegui absorver uma série de coisas do mundo – que não eram absorvíveis por uma criança – e aí isso tem a ver com a minha família, com questões da primeira infância… Acabei me tornando artista também por isso, é como se tivesse achado nos meios de comunicação não só uma forma de entender, mas também de comunicar.

Tinha arte na sua casa?
Tinha, bastante. Meus avós paternos são atores de teatro, tenho um tio que é artista plástico, minha mãe é psicóloga… Então sempre tive facilitadores nesse sentido! Meu pai chegou a ser músico, também… Eu me lembro de ter muitos livros e filmes em casa, meus avós falavam bastante sobre filmes e eu ficava curioso para assistir. E, para uma criança, um filme do Hitchcock é meio cabeçudo, né?

Dos prazeres que a música te oferece, você tem um favorito? O prazer estético, artístico, poético, sexual do palco e das performances..?
Todos estes! Acho que o mais legal da música enquanto arte é que ela passa por um viés pouquíssimo racional, é muito mais sensível, mais difícil. Por exemplo: um artista plástico, se ele é naturalista ou realista, obviamente a técnica é uma coisa que vai fazer parte do processo, assim como no cinema: aquilo tem que ter um enquadramento, uma série de questões muito técnicas – que as outras artes meio que exigem, também. E na música… Você tem que ter técnica, mas não se apega a isso! Muitas vezes, a desafinada que alguém deu, nossa, aquilo quebra o seu coração, ou a mesma harmonia musical de três notas que se repetem 500 vezes durante a nossa vida, que todo mundo já fez, ainda assim causam um efeito… É pouco racional e, por isso, sinto que a música acaba sendo um catalisador de outras artes e de outras coisas. O que mais me dá prazer no mundo é estar no palco, tocando, olhando nos olhos das pessoas, cantando para elas. Descobri que o que mais amo é dar mosh! (risos) Este é o tipo da coisa que a música é capaz de proporcionar por meio da arte dela, justamente por ser tão fora de si. Ela é um abraço da arte para todas as artes. O que eu mais gosto mesmo, o que mais me dá prazer, é justamente a possibilidade que a música me dá de fazer outras coisas que não são música.

O palco é a sua parte favorita do processo criativo?
É. Não sei se a favorita, mas a mais prazerosa, onde tem prazer, sabe? Mesmo quando dói, é uma dorzinha boa. Tenho uma história ótima: uma vez, fui fazer um show em Portugal com um compositor português, ele era do [grupo] Madredeus, se chama Rodrigo Leão. Ele é instrumentista e compositor e me chamou para gravar uma música com ele. Depois, quando lançou o disco, fez uma turnê de um mês e meio por Portugal e me convidou para fazer parte. Foi em 2011. O cara é gigante, é tipo um Roberto Carlos, um fenômeno. Eu cheguei e o primeiro show seria no dia seguinte, eu ainda estava me adaptando e não teve ensaio, nem nada: a gente só fez uma passagem de som, na qual ensaiei a música ao vivo pela primeira vez e, de repente, entrei no palco para cantar pra cinco mil pessoas urrando. Eu tinha noção do tamanho dele, mas não tinha experimentado isso fisicamente. Bicho, me deu um branco… Um branco! Não consegui cantar nada, juro. Passei a música inteira olhando para as pessoas e não me vinha nada da letra. Fiquei imobilizado e até hoje eu me lembro exatamente da sensação, que foi horrível, mas tinha um prazer também (risos), afinal, ainda assim estava comunicando algo para cinco mil pessoas, porque todo mundo via a minha emoção, aquilo para mim também era gigante. Tanto é que, quando acabou a música, todo mundo entendeu que eu não consegui cantar e que estava super nervoso e as pessoas me aplaudiram, foi ótimo. Então é isso, eu acho que o palco é a parte mais prazerosa, é como se tudo o que eu fizesse fosse para chegar a este momento. Tem outras coisas prazerosas no processo, como a composição, mas eu sinto que ela envolve muito mais angústia do que prazer.

A insegurança aparece nesse momento de uma forma um pouco mais palpável, né?
Eu me sinto muito angustiado. Por exemplo, estou exatamente começando a viver esse momento agora. Eu sinto que não mando muito no meu processo criativo, mas sei que ele já chegou. Hoje em dia eu sei. Há dois, três anos eu não sabia que “isso” que acontece comigo era o processo criativo. Hoje sinto que estou em um momento que quase poderia chamar de depressão, mas é outra coisa: é como se eu estivesse tão introvertido, tão pegando todo mundo e jogando para dentro de mim, sem conseguir comunicar, que daqui a pouco vai acontecer algo aqui dentro e vou colocar tudo para fora.

Você tem essa coisa visual no seu trabalho, dos vídeos e das fotos. Não dá para pensar em você sem pensar no todo. Quando começa um novo trabalho, essa parte surge depois?
Vem tudo meio junto, por isso que é difícil entender que já estou em um processo criativo. Depois do meu primeiro disco, os meus processos foram ficando um pouco diferentes: comecei a buscar muito mais imageticamente falando para depois construir músicas e discursos. E essa coisa da imagem… Ela aparece de um jeito muito nonsense. Por exemplo, depois desses shows em Portugal, eu estava começando um processo criativo e estava em profunda depressão. Comecei a sentir que teria uma crise de pânico, que nunca tinha tido. Estava começando a sentir uma coisa muito angustiante e lembro que, um dia, liguei para um amigo e falei: “Olha, acabei de sair do show, tenho quatro dias de intervalo, não estou perto de um computador agora, compre a primeira passagem para qualquer lugar fora de Lisboa, o primeiro lugar no mundo para onde tiver uma passagem. Amanhã de manhã eu quero estar neste lugar, depois te pago.”

Fui para Berlim. Nunca tinha ido. Estava andando por lá e me veio uma imagem, uma cena. A cidade tem essa coisa dos cabarés, que sempre me interessou, e do Bertolt Brecht, que foi o autor de teatro no qual me especializei, e eram referências que já estavam passando pela minha cabeça, aí me veio uma imagem do Andy Warhol e da turma dele nos anos 70 – que não tinha nada a ver com Berlim, literalmente. Fiquei com aquilo na mente e queria saber por que estava pensando naquelas coisas. Ao mesmo tempo, isso me motivava. Depois fui entender que, de algum jeito, tracei um paralelo entre os anos 70 e a cena da The Factory do Andy com o que eram de fato os cabarés de Berlim nos anos 20, as travestis, as maquiagens, as roupas, os discursos, o ser marginal… Todas estas questões estavam naquela imagem. São coisas que às vezes vêm e não sei o porquê. Atualmente, estou pensando muito em imagens mitológicas, já faz uns cinco meses. Então é isso, o meu processo criativo vem dessa coisa imagética e depois vou tentando elaborar. A última coisa que descubro é porque fui tocado por isso, que em geral é quando acabo compondo de fato. É um caos.

Ao mesmo tempo, você tem uma fonte concreta, que é o nosso mundo, a política, a sociedade, a arte e a cultura, que também funcionam como uma fonte bem potente para o seu trabalho, né?
Tudo junto, ao mesmo tempo. Mercado é uma coisa que dita o que é o mundo e isso reflete muito nas pessoas. Eu, como artista, também preciso refletir sobre isso. Eu me coloco à disposição para analisar, entender, ver e estar por dentro do que as pessoas estão pensando. Não é à toa que estou no momento mais confuso da minha carreira, afinal, a gente está em um momento muito confuso. Eu sinto, por exemplo, que entender onde o mercado me coloca é sempre importante, reflete alguma coisa. E não no sentido do marketing, mas de entender que, em 2012, ser gay era uma questão, mas, hoje em dia, é o contrário, as pessoas falam “você precisa que colocar no seu release, porque tem a questão da diversidade sexual…”

É sério isso?!
É sério. Tudo mudou nesse sentido e para mim é importante entender este lugar, porque muda o que vou dizer, como vou dizer e para quem vou dizer.

Você é um artista que quer construir ou destruir? Você fala muito em entrevistas sobre destruir coisas e conceitos, achei curioso.
Acho que
destruir para construir. Nossa, nunca tinha pensado nisso… Eu gosto de estar sempre em movimento. Nunca tinha pensado tão claramente que é exatamente isso, que tem a ver com construir e destruir – e é uma coisa que eu faço no meu trabalho, sempre construo uma identidade para destrui-la, para então construir outra…

São ciclos!
Acho que isso tem relação com o fato de que eu não quero ser capturado pelas coisas nem me sentir imobilizado. Não sei, é algo muito meu, acho que cada momento exige uma construção ou destruição. Sinto que 2014 foi um ano de destruir muitas coisas, o Brasil está aí, vimos o resultado. Começamos algo para tentar abrir para o novo e ficamos aqui, nesse lugar em que não sabemos onde estamos.

Por que 2014 especificamente?
Tudo começou em 2013, mas 2014 – quando lancei o meu último disco – foi um ano de “botar o pé na porta”. Aliás, acho que o grande problema de 2013 é que não deixaram a gente botar o pé na porta. Estamos colhendo os frutos disso: ou a gente destruía, ou não tinha novo. E aí, agora, estamos engolindo o velho do velho. O Rock’n’Roll Sugar Darling, meu último disco, foi profundamente inspirado nas manifestações. Lembro de quando começou o movimento de sair às ruas e a esquerda se afastou no momento do “Fora Dilma”. Talvez tivesse sido a hora de chutar a porta e falar “foda-se tudo!”, assim como eu acho que agora o momento de a gente entender o que ficou e construir em cima disso.

O que falta no teatro que a música te dá?
O século XXI. (risos) Eu entendi que tinha um grande barato em fazer música quando a internet passou a fase discada, quando a gente de fato começou – em 2004 ou 2005 – a entender a função dela, a ver que era possível se comunicar com alguém que estava do outro lado do mundo, que era possível chegar nas pessoas, criar coisas a partir dessa tropicalização. Pirei nisso e pensei “nossa, quero fazer música, porque nada é tão forte dentro desse negócio quanto a música”. Não interessa em que idioma você está cantando, não interessa nada. E essa crise com o teatro começou porque eu tinha a sensação de que ele ficou num lugar muito estacionado. Talvez a gente volte ao teatro em algum momento, como eu estou voltando para a mitologia, justamente por isso, porque é o lugar onde a presença se faz necessária, então não tinha como se adaptar de verdade ao século XXI. Você pode fazer uma transmissão de uma peça, mas isso já não é mais uma peça, não é teatro, é outra coisa. Teatro precisa do cuspe do ator na sua cara, senão não é teatro.

E esta arte talvez seja mesmo o lugar para onde a gente volta em um momento como o atual, em a internet mudou muito suas funções de ser, afinal agora tudo é pago, né? Hoje tudo é o Facebook, tudo é mercado, não é livre e simplesmente não é democrático. É pay for play, como tudo que o mercado toca. No fundo, estou sempre querendo fugir do mercado, porque o que ele toca morre, fica infértil. Eu há muito tempo estava sem nenhum interesse de assistir a peças de teatro, nenhuma vontade, nenhum desejo. E, recentemente, já fui assistir cinco vezes ao [diretor do Teatro Oficina] Zé Celso, “Bacantes”. Eu fico lá enlouquecendo com aquilo, achando tudo maravilhoso.

Você foi ver cinco vezes?! [A peça tem seis horas de duração]
Nesta temporada! Sem contar as que vi antigamente. É maravilhoso, é uma festa, não é teatro, está muito além.

Você estava falando sobre transmissão de peças, o Zé Celso transmite as dele pelo YouTube, né.
Sim. E faz bem feito! Mas não é teatro, é outra coisa. Mas eu sinto que a gente, enquanto humanidade, talvez se volte mais para o teatro daqui a pouco justamente por isso, porque é o lugar da vivência real, é como construir uma memória muito viva dentro da gente. Ali, o imprevisível é a verdadeira experiência e você guarda aquilo dentro de você durante anos, é transformador, não sai de moda.

Se você tivesse a oportunidade de estar no palco com duas pessoas, uma delas você assistiria e a outra dividiria o palco com você, quem escolheria?
Que difícil. Eu queria muito, muito ver o Jim Morrison. E para dividir o palco… o Zé Celso. Seria divertido. Seria interessante. Ele está aí, então tudo é possível!

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles