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Bruna Vieira

Bruna Vieira, 22 anos, é autora, criadora do Depois dos Quinze e youtuber. Nasceu em Leopoldina (MG).

Na sua trajetória, você passou de menina doce a garota coragem. Você enxerga essa evolução? Consegue perceber isso?
Consigo, principalmente depois que fui morar sozinha. Quando você está sozinha, começa a perceber o que realmente quer. Passei a ver quem eu era e quem estava me tornando ali, sabe? E por ser do interior, tinha uma perspectiva muito diferente do mundo, do que era o mundo e de quem eu era no mundo. E aí, em São Paulo, conheci outro universo, cresci como pessoa. E fui lidando com isso na internet, expondo tudo isso, então o tempo todo as pessoas opinavam – e isso, eu acho, me guiou um pouco, porque cresci com um monte de amigas, sem necessariamente ter este tanto de amigos sempre comigo. Ao mesmo tempo em que é legal e válido ter um tanto de gente falando ‘você me inspira’ e outras pessoas apontando ‘você deveria fazer aquilo’, em um momento eu tive que me fechar, parar de ouvir e perceber o que eu realmente queria. Aí percebi que “nossa, eu fiz coisa pra caramba, né?”. Durante o processo, você está tão ocupada que nem tem tempo de reclamar. (risos)

Você passa por estes momentos em que “cai a ficha” frequentemente?
Aconteceu hoje. Estava no Facebook, apareceu na timeline um menino e pensei que o conhecia de algum lugar. Entrei no perfil dele, comecei a ver as fotos e lembrei que ele foi da minha sala durante o Ensino Médio. Fiquei muito impressionada, pensei “nossa, já passou muito tempo” e, desde que saí do colégio, conheci tanta gente que acho que, sem querer, fui substituindo as pessoas na memória… É impressionante demais como as coisas mudaram. Comecei a ver as fotos que eu tinha tirado com ele e vi que outra Bruna nasceu. Quanta coisa mudou em mim! É muito legal voltar ao tempo assim, para você se olhar e perguntar “o que a Bruna lá de trás pensaria desta de agora”? Ela iria querer ser minha amiga? Mas, no geral, é um sentimento bom, cheguei onde queria chegar – passei por muita coisa, mas consegui chegar.

É algo natural de se pensar, mas eu, que te conheço, vejo que você procura ser autêntica. Acho que respeita muito quem você era. (Fernanda e Bruna são amigas e trabalham juntas)
Sim. A forma como você lida com seus problemas, com seus piores e melhores momentos, diz muito mais do que um discurso nas redes sociais, mais do que qualquer outra coisa. Quando a situação está indo pelo caminho errado, o que você faz? Quem você procura? O que você diz? Eu sempre paro para pensar nisso. A Bruna de antes lidaria com o problema do mesmo jeito que a Bruna de agora. Porque acontece de às vezes a pessoa ganhar alguma influência e tentar resolver as coisas de outro jeito. Para mim isso não mudou, eu continuo tentando resolver do mesmo jeito. E tem funcionado.

Vamos olhar para o futuro. O que você acha que falaria para você mais velha?
Eu não quero completar 40 anos e pensar “ai, eu deveria – ou não – ter feito aquilo”. Penso muito em continuar inspirando as pessoas do jeito que eu conseguir, do jeito real pra mim. Não vou forçar uma coisa que não sou para continuar tendo público, eu vou viver e buscar uma forma de fazer com que as pessoas se inspirem. Neste final de ano, tenho pensado muito sobre quem eu vou me tornar, o que vou fazer daqui a 10 anos… Uma vez me disseram isso e eu nunca tinha parado pra pensar: “Bruna, você já conquistou muito, mas só tem 22 anos. Então você pode, com 25 anos, se sentir exausta, com a sensação que já fez tudo no mundo, você tem que se reinventar sempre, porque pode correr o risco de se cansar de você” e aí ter depressão, encontrar abrigo nas drogas e se perder. Acho que o segredo é, antes disso acontecer, ter outro grande objetivo, ver graça em outras coisas. Você não pode parar de ver graça nas coisas.

Vejo você falando isso e fico pensando que, ao ouvir esse tipo de conselho, você precisa cuidar para não colocar uma super pressão em cima de si mesma, né? Bom, quando você traça seus planos, vai pelo instinto ou tem objetivos claros?
Depende. Acho que é diferente profissionalmente e na vida pessoal. Profissionalmente, tento entender o que está acontecendo no mercado. Quando comecei no YouTube, eu era totalmente voltada para texto e pensei “preciso dar um jeito, sou tímida, mas preciso me adaptar e fazer isso agora”. E daí eu fiz. Na vida pessoal, uso muito do que sinto para o meu trabalho, então teve um momento em que foi difícil, porque eu escrevia textos de amor e acabei alimentando um amor que não era real para continuar trabalhando. Precisei separar essas duas coisas e encontrar inspiração não só na dor, não só no momento difícil.

Você acha que criatividade é um dom, uma espécie de talento inerente a alguém, ou é o tipo de coisa que pode ser cultivada?
Acho que criatividade é o ambiente ao qual você está exposto e a maneira como você se comunica. Algumas pessoas usam a criatividade de um jeito que não é comercial ou que nem todo mundo aprecia. Você pode não ser bom com coisas manuais, mas sempre fala algo inteligente na hora certa. Acho que todo mundo tem um pouquinho de criatividade, só que você precisa expor isso e se expor a ambientes diferentes. Eu nasci no interior, nunca tive muitos livros em casa, nunca fui exposta a isso. Porém, quando colocaram internet, vi um novo mundo surgir. Eu não escrevia bem, não tinha um background de clássicos na minha cabeça para começar a escrever, só que eu queria falar e eu conseguia falar ao vivo para as pessoas, então comecei a escrever e fui desenvolvendo a minha criatividade. Depois disso, passei a viajar e conhecer lugares incríveis, o que me transformou. A perspectiva de mundo vai mudando. Acho que exercitar a criatividade é um bom remédio para depressão, por exemplo. É óbvio que algumas pessoas precisam tomar remédios, mas um jeito de encontrar um caminho para sair da tristeza, do momento difícil, é se expressar. E você pode se expressar escrevendo uma música, pintando um quadro, aprendendo a bordar, escrevendo um livro, enfim, colocando para fora o que está sentindo.

Você não tem problemas em se desconstruir para as pessoas. E isso não é algo que vemos muito nas celebridades de televisão nem entre os influenciadores digitais. Você não tem medo de expor a sua cara limpa, uma cicatriz, um problema ou outro… Soa fácil e natural pra você e as pessoas até estranham, porque não estão acostumadas. É um processo fácil ou não?
Não, é dificílimo! Na minha adolescência, vivia escondendo meus defeitos e tinha vergonha do meu estrabismo, das minhas estrias… Descobri que, quando falo sobre isso, não me sinto sozinha. É ruim porque as pessoas que não gostam de você também estão assistindo e encontrando o seu defeito, mas, proporcionalmente, o número de pessoas que escuta, se inspira e fala “também acontece aqui” é muito maior. Isso me ajudou e me salvou, porque eu tinha um monte de complexos e, provavelmente, se não tivesse aprendido a lidar com isso na internet, estaria fazendo tratamento ou seria uma pessoa super fechada. Compartilhar me fez entender que eu – a gente – nunca está sozinho em nossos problemas. Isso é muito legal e eu faço questão de ser o mais real possível. E não vou ser hipócrita de falar “eu tenho uma estria, aceite sua estria e pronto”, não, eu quero o meu melhor, então eu vou malhar, passar um creme e, se eu quiser fazer tratamento estético, vou fazer. A questão é mostrar, assim como todas as outras pessoas, que você quer ser a melhor versão se si mesma. Pronto.

E ser a melhor versão para si mesma, né? Não necessariamente para os outros.
É, exatamente. O Snapchat faz muito isso, mostra seu rosto, quem você é, e as pessoas estão ali analisando e julgando. Mas é um exercício para se conhecer! Sempre imagino a nossa vida como um filme, e fico pensando se eu seria o personagem para quem alguma menina criaria um Flogão de fã-clube. (risos) Sabe aquela pessoa cativante? Isso é algo que me preocupa, ser cativante, ser alguém que você gosta de estar perto.

Todo mundo me pergunta se você “é assim mesmo”…
(risos)

…Porque muita gente te conhece e é bizarro perceber que as pessoas já esperam ouvir algo ruim de quem que é muito conhecido, né? Sempre partem do princípio de que pode ser aparência.
Todos têm um lado bom e um lado não tão bom assim. A questão é o que você faz este lado não tão bom. Todo mundo tem pensamentos ruins, sente algum tipo de inveja, sente tudo. Mas não é isso que vendem pra gente quando somos crianças. Você assiste a um filme e tem a pessoa malvada e a boazinha, aí pensa “eu quero ser a boazinha”, e nunca aprende a lidar com seu lado ruim. E lidar com essa parte “má”, por exemplo, é segurar um comentário que poderia prejudicar ou deixar alguém chateado. Ou quando tem que tomar uma decisão que não vai mudar nada para você, mas vai ajudar alguém. Você toma a decisão ou deixa para lá? Este tipo de coisa diz muito sobre quem você é. E acho que tanta coisa boa acontece para mim, tenho tantas histórias positivas, tantas oportunidades legais, que não me sinto no direito de ser diferente de como sempre fui.

Uma vez que você está na mídia – mesmo que, no meu caso, seja só a pontinha do dedo da mídia -, você se dá conta de que estamos falando de seres humanos, de pessoas, então não importa se é a Bruna Marquezine ou a figurante da Malhação, elas têm sentimentos e terão dias bons e ruins, se apaixonam, têm inseguranças… Você precisa parar de olhar a vida da pessoa através de notícias e pensar “imagina se a Dani Calabresa fosse minha amiga e isso tivesse acontecido com ela. Eu comentaria? Ficaria zoando?”. Não! Porque ela não está em outro nível, entendeu? E isso sempre foi muito claro para mim na internet. Um monte de gente me acompanha, assim como eu acompanho um monte de gente que acho legal. Essa nossa geração tem a sorte de poder estar em muitos lugares e viver muitas coisas sem sair do lugar. Vamos ver o resultado disso daqui uns 30 anos: como vamos lidar com toda essa informação que absorvemos, esta ansiedade. Antigamente, as pessoas não ficavam tão a par da vida alheia e, hoje, como você sabe da vida de todo mundo, é inevitável não se comparar.

Mas cada um tem uma trajetória.
Algumas meninas falam “tenho a idade da Bruna e estou aqui fazendo faculdade, cursinho”, mas a minha realidade não está aqui para ser comparada, é para você buscar forças e pensar “se ela conseguiu, eu também consigo, do meu jeito e no meu tempo”. Mas sabe que eu também sinto um pouco dessa ansiedade? É algo que tento trabalhar na minha vida, principalmente esse ano. “Ai, não postei hoje no Instagram, não tenho nenhuma foto bonita, nada de legal…”, por exemplo. Porque as pessoas cobram! Meu, vou chegar aos 30 anos com um feed lindíssimo, que poderia virar um livro, mas o tempo inteiro preocupada em parecer feliz, em estar bonita na foto? É ok ficar em casa de pijama, assistindo Netflix o dia todo! Tudo bem! Dar esse tempo de vez em quando é importante e é isso que tenho feito para cuidar de mim, para ler mais, assistir a mais filmes e viver. E acho que esse é um exercício que todo mundo precisa fazer.

Tem quem ache que o Depois dos Quinze vai ser para sempre muito adolescente e que isso vai te infantilizar. É uma preocupação sua em algum momento ficar presa a um estigma adolescente?
Não! Acho que todo mundo é adolescente pelo resto da vida. E só tenho mais certeza disso conforme vou convivendo com os adultos. “Adolescente não sabe das coisas” Bom, adultos também não. A diferença é que a gente tem mais responsabilidades e precisamos descobrir um jeito de resolver os problemas. Eu quero falar com a sua parte adolescente para sempre. A sua vontade de viajar vai existir se você tiver 12 ou 65 anos. A sua vontade de passar delineador certinho vai existir com 15 ou 84. Uma vez eu coloquei uma legenda em que me chamava de “garota”. Aí uma menina disse “você não é mais garota, é mulher, pare de se achar adolescente”. Sou garota, sim. Mulher ou garota, me chamo do jeito que quiser. Não quero perder o meu lado garota, é ele que dá graça às coisas que faço. A identidade do blog pode mudar, o conteúdo e o jeito com o qual a gente trata de certos assuntos também, mas a grande questão é continuar falando sobre coisas legais e importantes.

Além de que você continua falando com garotas que precisam muito ler e ouvir aquelas coisas. Meninas que estão num momento muito especial.
Eu não tinha alguém assim com 15 anos. Seguia um monte de meninas de Londres que postavam fotos legais, mas não podia escrever para elas, encontrar com elas em um evento, ler um livro delas. Outra língua, outra realidade. Hoje, a menina pode escolher com qual influenciador ela mais se identifica, que tem o discurso parecido com o dela. E acho que a internet mostra tanta coisa para as crianças e os pré-adolescentes que eles acabam querendo crescer logo. Penso que a próxima geração vai desejar muito voltar a ser criança e a ver a vida de um jeito mais leve. Porque quando você é menor, quer ser adulto e ter responsabilidades, mas, depois que as tem… “Eu só queria ver Sessão da Tarde, sabe…” (risos)

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles