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Baleia

Sofia Vaz e Gabriel Vaz, cantores, compositores e irmãos cariocas, são vocalistas da banda Baleia.

Quando vocês se sentiram músicos pela primeira vez?
Gabriel: Acho que, até hoje, não consigo me considerar um músico… Os momentos vêm, mas são pontuais, eu os perco, eles não ficam.
Sofia: Não ficam, mas, para mim, por exemplo, quando bate mais é depois do show, quando a galera vem falar com a gente e você sente que, caraca, tem um público e ele estava esperando alguma coisa.
Gabriel: É muito estranho porque você vê que representa algo para uma galera. Você acha que não e aí, de repente, tem um bando de gente com o disco na mão, querendo falar, tirar foto, emocionados. E a gente pensa: “Caraca, mas por quê?!” (risos)
Sofia: Nós ficamos querendo resolver várias coisas, envolvidos preparando o show, ensaiando, passando o som, num mega estresse. Aí, quando você consegue fazer o show, o depois é o momento em que entende que tem público: pessoas que estão lá, pagaram ingresso para assistir a você e estão te dando esse feedback.
Gabriel: Sabe quando me bate muito também? Quando tem lanchinho bom no camarim: “Nossa! Chegamos lá!” (risos)

Isso que vocês falaram sobre a galera sentir emoção com algo que você faz… Deve ser bem foda, né?
Gabriel: É, muito, mas às vezes você nem consegue aproveitar, porque fica um pouco assustado, incrédulo! Você está naquela função, fritando para dar o seu melhor, fazer as coisas funcionarem, aí faz o show, pensa “cara, consegui” e…
Sofia: …Ah, mas não é bem assim, o show não é uma grande provação o tempo inteiro, você aproveita, consegue se emocionar! Mas quando temos um espelho, o público, é doido, né!
Gabriel: Sim! Claro.

Como rola o processo de criação coletiva de vocês?
Gabriel: É sempre muito caótico e, ao mesmo tempo, também frutífero. Estamos no segundo disco e, no primeiro, o “Quebra Azul”, quando me perguntavam sobre o processo de criação, eu falava que era desse ou daquele jeito, a gente só tinha uma experiência para dar como exemplo. E agora, no segundo, vi que a forma como trabalhamos é algo em transformação, porque com este disco foi diferente!
Sofia: O que eu acho bacana sobre ser uma coisa pouco individual – ou em que você consiga entender pouco sobre cada pessoa ali – é essa experiência de conseguir fazer o grupo formar um indivíduo, então, na verdade, é como se fosse um sétimo integrante sendo representado ali! O processo é caótico, às vezes parece que não vai dar em lugar nenhum, até chegar num resultado que, na verdade, não vira uma representação minha, nem do Gabriel, nem dos outros, vira um novo sujeito, que é a Baleia. É uma mistura e não sabemos muito bem como a gente acaba chegando nesse lugar, até porque temos influências externas – de outras pessoas, inclusive. Se você for pensar na arte, tem a Lisa Akerman [ilustradora do álbum-livro “ATLAS” da banda], que está ali no meio, tem o produtor, tem quem nos ajuda com o áudio…
Gabriel: Não é nada fácil!

Mas é um processo fluido? Ou, por envolver muitas pessoas, é algo que vocês têm que se propor a fazer, “nós temos que sentar para escrever”?
Sofia:
É trabalho, né? Tem o momento em que você sente que precisa parar e sentar para escrever, a gente passou por isso, mas é fluido por ser muita gente – cada hora está acontecendo em um lugar.
Gabriel: Sempre tem um momento em que ninguém entende o que está acontecendo, aí a gente tem uma crise e, do nada, vem uma parada e sabemos por onde seguir. Na verdade, quando se trabalha em grupo, poucas vezes todo mundo consegue estar 100% feliz. E acho que faz parte! Você tem que aprender a confiar, afinal, sabe que está ao redor de pessoas com quem escolheu trabalhar, que são inteligentes, e, se elas gostam, tenho que entender quando devo confiar que aquilo está indo para um lugar interessante – com o qual posso não estar em contato ainda.

O que vocês gostariam que o álbum ATLAS provocasse nas pessoas?
Sofia:
Qual era a parada que a gente viu naquela propaganda do metrô? Que até tiramos foto? “Grande impacto”!
Gabriel: “Grande audiência!” (risos) É difícil escolher uma coisa específica, você quer que as pessoas se emocionem de uma forma ou de outra – isso não quer necessariamente dizer verter lágrimas e sentir nostalgia, o que eu acho é que tem que mobilizar algo dentro das pessoas, energizá-las.
Sofia: Quando eu gosto de alguma música, em geral, ela me tira de onde estou e acesso outro lugar, outra frequência, o que você só faz se emocionando de alguma forma. Pelo menos para mim!
Gabriel: Eu só posso falar por mim, também, e é a mesma coisa! Quero que as pessoas tenham sinestesias, vejam imagens, sintam coisas, pensem. Uma coisa que provoque, mesmo. Acho que as pessoas precisam ter vontade de dançar e correr quando escutam algo.

Achei bonito isso! Qual é o lugar no mundo pra onde vocês mais olham num atlas ou em um mapa?
Gabriel:
Eu adoro explorar no Google Maps aqueles cantos completamente inóspitos da Rússia: lá em cima existe uma cidade! Como deve ser morar ali, cara?
Sofia: É, uns lugares bem ermos! Você bota no Maps e vai dando zoom!
Gabriel: E vê vendo umas casinhas – tem uma galera ali! É muito distante. Será que eles sabem das coisas que acontecem no mundo? Como deve ser estar ali? Eu gosto de visitar lugares onde não exista um cotidiano ocidental metropolitano, sabe? Isolados!
Sofia: Em geral, eu também vou para lugares que estão bem vazios, onde quase não tem cidadezinhas e parece que não tem população, aí você acha uma! Gosto de umas coisas assim.

O álbum-livro de ATLAS deixou a música de vocês meio que literalmente palpável, né? Criar isso tudo e ver acontecendo deve ter sido bem doido – e bem bonito.
Sofia:
É! Ficamos um tempão fazendo isso, um ano. Nos reunimos algumas vezes com a Lisa e a ideia era transformar algo que é musical – com o qual você junta a parte lírica da letra -, e conseguir transformar isso num tipo de raciocínio, porque ainda fica em um lugar muito emocional. Primeiro é a música, depois a letra, você passa por tudo aquilo que quer dizer, e isso se transforma em imagem!
Gabriel: Apesar de abstrato, o projeto foi se construindo, fluindo, desde o início. Quando começamos a mexer com as letras, lembro de falarmos que este disco poderia ser mais, a gente queria que fosse um lugar, porque músicas são normalmente sobre uma relação ou a história de alguém específico, mas estávamos com a sensação de que ali falava-se de um lugar, e nos tocamos: este lugar era nada mais que um reflexo do mundo em que a gente está inserido e acostumado, o nosso cotidiano, só que numa outra dimensão.
Sofia: Uma dimensão interna! Mais subjetiva.
Gabriel: Como se a gente tirasse essa roupagem certinha, com limites e racional, e fosse para um lugar onde as coisas acontecem no subconsciente.
Sofia: A gente transformou [as músicas] em criaturas, em lugares, e fomos a partir disso! A brincadeira era descobrir qual era a atividade daquela criatura, onde ela morava, o que ela faria, quais as relações… Aí a Lisa foi criando esses mundos!
Gabriel: A música “Duplo-Andantes”, inclusive, é uma criatura! Fizemos pensando nisso, em falar dessas criaturas!
Sofia: Várias têm disso. “Salto” também tem!

Vocês conseguem escolher duas músicas que queriam muito que fossem suas?
Sofia:
A gente vai voltar pra Beyoncé… (risos)
Gabriel: Sempre voltamos para as mesmas referências, Beyoncé e Radiohead! (risos) Felipe, escolhe uma música!
Felipe Ventura [violinista e guitarrista]: Que eu queria ter feito? Aquele refrão: “¿Quién me tapará esta noche si hace frío? ¿Quién me va a curar el corazón partío?”
Sofia:Corazón Partio“! Alejandro Sanz.
Gabriel: É porque, há pouco tempo, a gente estava num karaokê, começou a tocar essa música e nos demos conta de que o refrão é genial, muito bem feito.
Felipe: Muito bom! Eu gosto de um refrão longo, em que a melodia tem um caminho, não fica se repetindo muito, e tem umas alterações de ritmo ali que são muito boas! Genial. Acho lindo. Também queria ter feito “Ouro de Tolo“, do Raul Seixas.
Gabriel: Você está escolhendo todas as músicas de karaokê.
Felipe: “Ouro de Tolo” não tem no karaokê! Também queria ter feito “All I Need“, do Radiohead.
Gabriel: E eu, “Don’t Stop ‘Til You Get Enough“. Mas ela é difícil demais, genial. Uma das músicas mais bem produzidas de todos os tempos, os sons e arranjos são incríveis, a construção dela é perfeita.

Uma música de ATLAS que vocês adorariam ouvir na voz de alguém. Qual música e quem?
Sofia:
Quem é difícil demais!
Felipe: A St. Vincent cantando “Hiato”!
Sofia: Cara, isso seria bom!
Gabriel: Não consigo imaginar…
Felipe: A gente faz uma versão em inglês!

Qualquer músico, vivo ou morto, é o novo integrante da Baleia. Quem é essa pessoa?
Sofia:
Nossa! Para entrar na banda… Ah, chama logo o Jonny Greenwood!
Felipe: Mas aí eu vou fazer o quê?! (risos)
Sofia: Imagina se tivesse ele também? Bom, eu curtiria St. Vincent na banda. Muito foda. Outro estilo! Vocês também podem chamar alguém para cantar, não tem problema nenhum! (todos riem) Hm… Então bota logo a Joanna Newsom tocando harpa, pronto!

Um momento da Baleia que deixou vocês com lágrimas nos olhos, emocionados.
Gabriel:
É muito clichê, mas no dia em que a gente lançou o primeiro disco, o “Quebra Azul”, eu dei uma choradinha! (risos)
Sofia: Eu gosto do começo dos shows, quando a galera responde. Engraçado, para mim é mais nessas horas que bate emoção…
Gabriel: Nada é melhor ou deixa a gente tão cheio de emoção do que quando termina uma música e alguém grita “caralhooo! Puta que pariu!” (todos riem) Isso é muito foda!
Sofia: Esses dias, teve um “Fora Temer” no show também, a gente puxou o “primeiramente”. Sabe esses tipos de resposta, quando sentimos que a galera está junto?!

Qual é a melhor e a pior parte de ser um artista?
Felipe:
A melhor parte é fazer, compor a música e gostar dela!
Gabriel: E a pior é exatamente o contrário: a liberdade é uma faca de dois gumes, você está livre para criar e fazer as coisas em que acredita, mas, ao mesmo tempo, se tropeça, está livre também – e não sabe onde vai cair. Não tem ninguém que vá dizer o que fazer, como, quando.
Sofia: Você se sente meio vulnerável o tempo inteiro. Não tem um caminho certinho, um passo a passo, um manual. Estamos o tempo todo mostrando uma coisa e ali não existe um julgamento de certo e errado, bom e ruim, você está sempre se colocando à prova. Quando dá certo, tem um certo êxtase, e, quando não, rola um desconforto de insegurança.
Felipe: Eu sinto muito isso, mas num nível mais entre a gente, mesmo. Quando eu mando uma música para vocês. A partir do momento em que mando, enfrento dias de tremelique até vocês responderem qualquer coisa. Quando falam que é legal, é a melhor sensação do mundo.
Gabriel: Quando se é artista, toda a sua carreira, sua vida e seu caminho estão completamente ligados a um lado pessoal, o íntimo está em todas as esferas da sua vida e você está trabalhando com uma coisa que vem de dentro. Nossa, chega uma hora que fica exaustivo.
Sofia: Dar entrevistas, por exemplo. A gente vai ficando cascudo, mas só o fato de responder em entrevistas sobre algo que é a gente e do qual não sabemos explicar – não temos porquê para tudo – é difícil. Mas tem muitas delícias. Para mim, uma parte boa é quando tem ensaio de arranjos, estamos criando, as coisas vão se construindo e vai dando certo, é muito bom! Vai virando alguma coisa e você se empolga.
Gabriel: E a capacidade de se emocionar com algo que você mesmo criou, mesmo em conjunto, mas que pertence à gente, é uma sensação de muita completude!

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles