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Rafael Coutinho

Rafael Coutinho é quadrinista, cartunista e ilustrador e nasceu em São Paulo (SP).

Você estudou arte a fundo.
Não sei se a fundo, não, acho que tangenciei a arte e que tenho uma carreira bem superficial de artista, que não tem tempo para se aprofundar. (risos) Mas sim, eu estudei arte.

Como estudar arte influencia na forma como você faz arte?
Ah, foi muito bom! Tem coisas e reflexões sobre o fazer artístico que você não aprende de outra forma, a não ser lendo e estudando, e eu era muito jovem e tinha muitas dúvidas sobre o que era ser artista, então foi um período de conhecer colegas do meio – fiz muitos amigos artistas plásticos – e de experimentar muitas coisas, o que fora da faculdade fica mais complicado de fazer, testar técnicas mais tradicionais… Acho que é uma “caminha” para você conseguir, a partir dali, criar uma narrativa própria. Eu sou bem grato, tenho reflexões que sei que saíram dali sobre o trabalho estar ou não amarrado conceitualmente, se ele se desdobra ou não, se não está muito superficial…

Onde você fez faculdade (de Artes Plásticas)?
Na Unesp. Me formei em 2004. Tenho 36 anos.

O seu trabalho surge mais a partir de inspiração e referência – fatores externos – ou de criatividade e pensamento – fatores internos?
Nossa. Não sei! Acho que sempre é uma mistura dos dois, é difícil estarem separados. Tem vezes que projetos nascem de uma coisa interior, um exercício formal. Por exemplo, tenho uma ideia formal: quero trabalhar com este suporte ou este material, ou partindo deste determinado conceito formal, ou discutindo “o branco é preto” ou falando sobre questões que flertam com política. E a partir daí o trabalho vai ganhando um tônus mais pessoal. Agora tem outros projetos que são sobre a minha história, a minha vida, porque eu queria falar sobre isso que estou sentindo. Mas depende, eu também gosto de pular de mídia, acho muito bom variar! Gosto muito de fazer várias coisas ao mesmo tempo, então, às vezes, os trabalhos mais formais estão juntos com os trabalhos pessoais, que estão juntos de trabalhos mais longos… O ano vai se dividindo dessa forma, aparecem os freelas, os cursos – que também alimentam as ideias -, é uma baita mistura!

Qual é a sua parte favorita do processo criativo?
Concluir! (risos) Tinha uma professora de pintura, ela se chama Marina Saleme, que dizia que terminar uma pintura é melhor do que sexo, porque dura muito mais! (risos) O orgasmo dura um tempão, e eu concordo com ela.

E neste ponto do trabalho não tem estafa?
Tem, tem. Eu estava falando hoje sobre isso: os quadrinhos vêm muito carregados de um cansaço extremo, são dois, três, seis anos fazendo um livro, e aí, quando conclui, você não está com esse tesão do sexo, está na verdade super exausto, não consegue ver o trabalho direito, cria um certo bode. Mas depois que isso passa, o prazer volta! E esse prazer é mais longo do que o cansaço.

Em que medida, se é que existe alguma, o seu caminho profissional foi inspirado pelas coisas que você via dentro de casa? (Rafael é filho de Laerte Coutinho)
Ah, o fazer artístico era bem presente, era muito normal lá em casa ver o meu pai trabalhar. Eu nunca tive um pai bombeiro ou advogado, tive um pai artista, e minha mãe também é muito ligada em arte, tinham muitas máscaras, trabalhos de pintores nas paredes, pôsteres de exposições, e isso foi me moldando profundamente. Tenho a clara noção de que essa familiaridade que tenho com essa profissão e com essa escolha vem de lá.

Quais são as suas linguagens artísticas favoritas?
Eu sou muito quadrinista hoje em dia. Gostaria de ser menos. Acho que em algum momento eu fui menos. Os quadrinhos tomaram espaço de outras linguagens, tipo pintura, que é um negócio que eu fazia muito e hoje em dia faço pouco…

Bom, nem precisa ser algo que você faça, na verdade. No seu programa no Canal Brasil, “Rafael Coutinho Desenha Com”, você interage com pessoas de linguagens artísticas muito diferentes, diretores de arte, animadores e tudo mais. Quais são as linguagens que mais te encantam?
Eu sou bem ligado em Cinema, mas acho que, hoje em dia… Não sei, gosto muito de acreditar que eu sou todas elas, que não existe essa barreira, isso me excita e eu acho muito legal encontrar estas outras mídias e tentar usar o meu material para conversar com elas. Acho que, mais do que as mídias, neste programa e nos outros projetos em que me envolvi que apontavam para este caminho, o lance era o diálogo mesmo, a ferramenta de diálogo com outros artistas e com o próprio público. Eu gosto muito de ceder para tentar encontrar essa outra pessoa e travar um diálogo plástico, gráfico, visual.

Fiz um trabalho recentemente com o Felipe Hirsch que me marcou muito! Era teatro e ele é um cara incrível, um baita dramaturgo, e aí a gente ficou nessa tentativa de fazer as duas coisas conversarem, dialogarem, foi maravilhoso! O próprio Ralph Gehre, que está no programa, é um deus na Terra para mim, é um artista plástico e tudo o que ele fala faz um puta sentido para o que eu faço, me abriu para um monte de questões: o jeito como ele encara as artes plásticas é muito diferente do meu e ele tem uma noção muito mais ampla. Eu gosto destes lugares, onde eu vou com meu materialzinho e tento achar um ponto comum – em reflexão, somando ou até subtraindo do que a outra pessoa oferece!

Você tem uma coisa com criação coletiva, né? Você gosta muito disso.
Adoro! Mas adoro também porque tenho esse espaço meio garantido que é o meu, eu entendo onde é o meu espaço, quando não vem ninguém, quando passo o dia sem ver ninguém e está tudo bem. Mas eu não conseguiria ser só isso, para mim é impossível, eu tenho muito amigo para quem que isso basta, mas eu sinto falta! Ter a minha editora era também um jeito de conversar com os autores, montar os eventos, as feiras… Aliás, tem um evento que devemos fazer no MIS que vai ser um grande diálogo com um monte de gente… Bom, eu adoro. É muito legal! Me motiva muito tentar achar estes lugares de conversa.

Um cartunista/quadrinista acaba precisando se posicionar politica e socialmente com seu trabalho. Isso foi ou é conflituoso para você de alguma forma?
Acho que foi em algum momento, quando eu era jovem, em função das grandes discussões nas quais o meu pai se envolveu e promoveu. O trabalho dele sempre foi muito político, jornalismo de reflexão, de cotidiano. Foi ficando bem claro – e mais ou menos cedo – que eu era ligado e gostava muito de política e que o meu posicionamento era assim ou assado. Eu não escolhi um trabalho político, ele não é abertamente direcionado a reflexões políticas num sentido tradicional da palavra, e eu preferi esse caminho mais da subjetividade. E aí acho que, ali, demorei para entender onde morava a política nessa relação e demorei para entender que eu já fazia isso, que não precisava forçar, não era uma coisa que eu precisava direcionar.

Eu gosto muito de entender que o meu trabalho também é fruto de como eu encaro as questões que vão aparecendo, sabendo que ele vai sofrer uma alteração, uma modificação em função do que eu aprendo a respeito dessas reflexões. Por exemplo: o movimento feminista dentro dos quadrinhos está muito forte e isso mudou drasticamente a forma como eu encaro o meu trabalho e o meu papel dentro desse jogo social todo. Isso é o que tem mais me mexido, aí vamos discutir e pensar isso diariamente, com a família, com amigos, enfim, com o meio, na mídia… E então eu vejo que sim, que comecei a mudar coisas no meu trabalho, nas histórias em quadrinhos, na construção de personagens, na forma como eu convidava as pessoas também – mais homens do que mulheres, o que começou a ficar muito evidente, enfim. Isso tudo é muito forte para mim! Fui percebendo que eu tinha uma voz e que era bem importante que eu me posicionasse, que eu me atualizasse e entendesse tudo! É um baita aprendizado diário, e acontece de falar merda e depois voltar atrás, ver que eu entendi errado, e aí ler e tentar achar literatura selecionada…

Por que um artista plástico quis um programa em preto e branco? Queria saber um pouco sobre a sua relação com as cores.
(risos) Pois é! Eu tenho uma relação muito forte com quadrinhos em preto e branco, são quase uma instituição, tem vários autores que eu admiro e idolatro dentro dos quadrinhos que criaram uma poética toda em preto e branco. Em algum momento, você, como quadrinista de histórias longas, médias ou curtas, vai ter que lidar com a forma como encara o preto e o branco no seu trabalho. Hoje em dia, com as plataformas digitais, isso tem caído um pouco, mas até pouco tempo atrás era muito evidente. Fiz muitos trabalhos longos em preto e branco e sempre vi esta relação entre ausência e presença, entre espaços abertos que sugerem espaços fechados, o próprio branco, que age como preto dependendo da forma como você o usa… Então era meio que uma orientação a partir daí. E se a gente trouxesse esses diálogos para a mesa, seria um jeito de discutir a própria dicotomia das ideias, o preto e o branco como forças opostas e que excluem as nuances, que estão sempre presentes em todas as relações. Existe este diálogo entre duas pessoas trabalhando, o próprio preto e branco, e aí tem a busca por estes semi-tons, não só no trabalho como nas relações. Uau. Paguei pau pra mim agora. (risos)

Você gosta de ser artista? Por quê?
Eu gosto de ser artista! Não consigo nem entender como seria não ser artista, eu entendo vendo os meus amigos que não são, mas gosto de ser artista, da identidade de ser artista. Gosto até quando é ruim, quando é difícil, acho uma profissão bem nobre e guerreira. Admiro sempre quando vejo o corpo de trabalho de um artista que dedicou a sua vida inteira a isso e está lá, boom, aquele monolito intransponível, e isso me lembra que eu fiz uma escolha certa e que sou artista! E acho que ser artista é também duvidar o tempo inteiro, é entender que esta existência é muito etérea, tu precisa se redefinir sempre, não é uma coisa sólida, a gente não chega em um guichê e fala “sou artista, cadê os meus direitos?”, é um constante trabalho de redefinição no mundo, o próximo trabalho, o próximo projeto. Vacilou? Parou? Você não é mais. Você era.

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles