MENU

Camila Márdila

Camila Márdila, atriz, é de Taguatinga (DF).

Você se apaixonou primeiro por cinema ou pela atuação?
Atuação. Eu fui entender o cinema mais tarde! Não tive uma criação com muito contato com o Cinema – nem com teatro. Não sei de onde tirei isso de ser atriz! (risos) Acho que foi tudo muito intuitivo, era uma coisa da qual eu gostava de fazer, tipo aulinha de teatro. Quando eu era muito pequenininha e não sabia nem ler, com uns quatro ou cinco anos, minha mãe me ajudava a decorar poemas para a apresentação de Dia das Mães da escola… Aí eu participava de todas as apresentações e ela percebia que aquilo me deixava menos tímida, porque eu era muito retraída, fechada. Não era uma criança brincalhona, era séria, uma criança meio velha. Então ela me colocou em oficinas de teatro, cursos.. Tinha um lugar em Brasília que dava curso de modelo infantil, mas a aulinha era de teatro e expressão corporal. Quando eu tinha 14 anos, comecei a dar aulas de desfile para crianças e virei tipo monitora/professora. Comecei a trabalhar bem cedo, assim, nas escolas, uma vez por semana. Aí fui juntando um dinheirinho – também porque tinha essa intuição que iria sair de Brasília em algum momento. E minha mãe entendia isso.

Você é filha única?
Não, eu tenho um irmão mais velho, seis anos mais velho. E aí minha mãe ficava muito impressionada com esse meu lado artístico, sem entender como ela podia ajudar – ou não. Ela diz que desde os 12 anos eu falava que “ia embora”.

E ela lidava bem com isso? Com essa sua vontade?
Muito… Ela foi muito parceira, mesmo sem entender nada. Ela e meu pai. Se eu falasse que queria fazer um curso em qualquer lugar, ele arranjava dinheiro e dizia que eu tinha que poder fazer. Eu sei que eles ficavam muito desesperados porque era uma área distante deles, tinham essa visão de que tudo é questão de indicação ou de nascer em família de artista. Eles achavam que seria um hobby meu e que ia passar. Não passou. (risos) Na adolescência, eles falavam “e aí, esse tal de dinheiro?”, porque eu ainda dizia que não queria fazer televisão, que não era bem isso. Eu não tinha esse pique de ficar fazendo teste, entendia que tinha que ser uma consequência do teatro e a gente brigou muito nesse sentido, porque a única visão que eles tinham é que só daria certo caso eu fosse atrás de televisão. Aí, um tanto mais velha, comecei a me apaixonar pelo Cinema e fui parar na área de Comunicação Social.

Você fez na UnB, né? Como é o curso? 
Você entra em Comunicação Geral e já aponta qual habilitação quer. Eu escolhi Publicidade. Depois me arrependi, mas, se fosse trocar para Cinema, me atrasaria. Me formei, fui procurar estágio na parte de produção de vídeos e fiquei trabalhando um período na área de Audiovisual, mesmo. Fazia produção de elenco, de set de gravação…

Isso deve ter te ajudado muito a entender os processos por trás da atuação, né?
Com certeza. Me fez entender que, nesse trabalho, é tudo na base de teste, que é uma coisa com a qual a maioria das crianças não convive no início da vida, com isso de ser trocada por outra menina de olhos verdes. Eu comecei pequenininha e minha mãe ficava louca, perguntava como eu aturava…

Você sempre fez muitos testes?
Fazia, pra publicidade. Nunca passava! (risos) Sou péssima pra testes até hoje, não me dou com o jeito que as pessoas fazem testes na maioria das vezes. Para o “Que Horas Ela Volta?” eu fiz teste, mas foi de outra forma… É quase um teste-ensaio. Mas com publicidade sempre me dei mal – e lidei com essa coisa de substituição desde muito nova. Fui me acostumando a não deixar o ego se abalar! Este é um dos processos mais difíceis. Quando fiquei mais velha, ficou claro que, poxa, uma produção de elenco passa por muitas questões, e algumas até horrorosas, que me fizeram sair da Publicidade, coisas de preconceito: “não pode ser gay”, “não pode parecer pobre”. Ter que ouvir isso em uma reunião, sabe? Foi o último trabalho que fiz de publicidade.

Estava lendo sobre você e muita gente fala que te relaciona com “concentração, foco e preparo”. Isso tudo é algo que você trabalha muito pra desenvolver ou que já “vem” com você?
Eu tento entender isso até hoje! Lembro que, desde pequena, as pessoas já falavam para a minha mãe que eu era muito concentrada. Acho que tem a ver com o fato de eu ser, inclusive para a Astrologia, uma alma antiga. (risos) Acho que é uma coisa de Peixes, pisciano já nasce velho. Mas tem uma coisa da minha criação, de desde pequena eu me aceitar como era, uma criança esquisita, talvez, que gostava muito de ler e ficar na minha. Eu nunca gostei, por exemplo, de fazer aulas de teatro infantil: mesmo quando era criança, fazia sempre com turmas adultas. Então convivi com gente mais velha desde muito nova. Acho que esse meu jeito acaba mostrando muito de mim para as pessoas. A Jéssica também tinha essa pegada, essa “aparente segurança” (risos), porque é aparente, né? Na verdade, me sinto o tempo todo tentando coisas, nunca segura de fato. Acho ruim – inclusive para o trabalho do ator – você ser muito seguro, o interessante é sempre ter a possibilidade de aquilo dar errado. A partir do momento em que você sabe demais, alguma coisa está estranha.

Vai ser muito legal te ver como Cora Coralina no cinema. Imagino que deve ter sido bonito construir essa trajetória.
É um documentário que tem pequenas participações de atrizes fazendo algum momento da vida dela. E ela, na juventude, teve discursos lindos sobre a questão da mulher naquela época – ela foi uma mulher muito revolucionária, fez coisas que ninguém imaginava que poderiam ser feitas. Pintar a cara, falar sobre os negros, ir embora com um homem casado no meio da madrugada. Foi muito legal entrar em contato com os poemas dela. Interessante, apesar de ter sido rápido.

Tem previsão de quando sai?
Vai passar na Mostra em Brasília agora em setembro e acho que tem uma possibilidade de ir para os cinemas em outubro ou novembro. Deve ser pouco distribuído, infelizmente, mas vai estar em alguns lugares.

Quantas vezes você assistiu a “Que Horas Ela Volta?”, tem noção?
Putz! Não faço ideia! Acho que o filme inteiro faz um tempinho que não vejo. Da cena da piscina da Regina [Casé] pra frente, eu sempre choro o tempo inteiro. Para não passar vergonha, dei uma parada. (risos) Eu vi muitas vezes, gosto de acompanhar debates, ver a reação das pessoas… Porque muda bastante e é interessante tentar entender o porquê, né.

Queria saber qual é o sentimento que esse projeto ainda te traz e qual foi o maior aprendizado que te trouxe.
Ah, muitas coisas… Acho que o sentimento de responsabilidade é muito forte, nunca senti tanta responsabilidade com relação ao que eu falo ou represento como atriz. Uma das coisas que mais pegou nesse filme foram as personagens do nosso mundo social serem representadas de uma maneira que nunca foram – se foram, foi muito pouco, ou nunca daquela forma. Então você tem um filme com três personagens femininas que conduzem a história e tem a questão da mulher, de a Jéssica ser totalmente independente de qualquer homem daquela trama.

Eu nunca tinha me atentado para a importância desta questão da representação artística, política… Este filme representou um momento político muito específico e a gente ainda entrou nesse período nebuloso! Me deu uma chacoalhada e me fez entender quais são as forças que precisamos atenuar no mundo. Como fazer isso sendo uma atriz? Sendo uma pessoa, uma cidadã, uma mulher brasileira… O que a gente tem que colocar em jogo a partir dos gestos?

Acho que os “Fabinhos” talvez sejam um dos pontos mais importantes do filme com relação à criação de consciência, porque, por um lado, as “Jéssicas” já se sabem assim e existem muito por aí – eu estudei na UnB e conhecia várias, que foram a minha inspiração totalmente, e elas se sentiam – e se sentem ainda, porque foi só um filme – pouco representadas, a filha da empregada, essa outra geração que não se vê condenada a perpetuar um ciclo. Mas, pelo lado dos “Fabinhos”, acho que os tocou muito, em vários debates vi gente se reconhecendo no Fabinho e morrendo de vergonha. Mas e agora, o que a gente vai fazer com essa vergonha? E eu vejo algumas pessoas começando a ter atitudes totalmente diferentes em relação à pessoa que vai lá na sua casa para fazer faxina: você vai deixar uma louça acumulada? Quantas vezes você de fato precisa? Como pode lidar com essa pessoa de uma maneira mais humana e menos opressora? Como pode se articular no mundo para tentar diminuir esse abismo? A gente começa mudando aí, na maneira de ver o outro – e de se deixar ser visto, também.

É um negócio que parece ser muito brasileiro… Mas não é, tanto é que o filme foi recebido como foi no mundo todo!
Sim, porque você sempre tem o “cidadão de segunda classe” e isso gera diferenças muito grandes. Cabe todo mundo no mundo, mas estamos numa tendência mundial – é louco, porque não é só no Brasil -, de criar umas fronteiras que estávamos começando a dissolver. Acho que o filme é muito sobre isso, não é à toa que a Jéssica escolhe Arquitetura e vê isso como instrumento de mudança social. O espaço diz demais: eles excluem pessoas do centro urbano, criam um muro para não entrar imigrantes, saem de uma União Europeia. E aí você coloca aquele monte de paredes de novo, o “daquela porta para lá” onde a Dona Bárbara pede para a Jéssica ficar. Quando a gente falava sobre o mundo todo ter conseguido se enxergar no filme, a Anna Muylaert chegou a dizer que talvez os únicos que não fossem entender seriam os índios. Aí resolveram fazer uma sessão! Mandaram pra gente fotos e comentários… E eles falaram que a coisa que mais os deixava impressionados é que aquela casa “tinha muitas paredes”! Muitas divisões de espaço.

…E portas fechadas.
Sim, aquilo de até onde você pode ir, e não no sentido de privacidade, mas de hierarquia. A lógica da manutenção de privilégios vai totalmente contra qualquer melhoria para uma nação totalmente desenvolvida, e é nessa lógica que o patriarcado funciona, ainda que eles representem 2% de um país inteiro – ou até menos do que isso. Eu acredito que uma das grandes forças do filme é a educação no sentido escolar e de vivência como possibilidade de mudança. Nós tivemos pouquíssimos que deram um pouco de prioridade para uma nação mais educada, o que já não foi desejável, porque a gente começou a ficar muito espertinho, a ter muito acesso, a andar de avião. E eu boto “a gente” porque a história da minha família foi meio por aí, meus primos são a primeira geração que entrou na faculdade, muito por causa de cotas e incentivos sociais.

Você tem um coletivo de arte, se envolve em projetos teatrais legais, faz filmes muito bons, está participando de um projeto de televisão incrível… Ter boas oportunidades em todas as áreas da atuação é um puta privilégio.
Não estou podendo reclamar, não. (risos) Mas acho que isso tem muito a ver com aquilo que a gente falou no início, eu sempre tive noção das coisas com as quais queria me relacionar ou não. Longe de ser um julgamento de melhor ou pior, mas de identificação, mesmo. E se sou fã daquela pessoa, vou atrás. Logo depois da faculdade, eu mandava e-mail para tal pessoa do cinema falando “deixa eu aprender com você, eu trabalho de graça e fico ali do lado”. O trabalho é minha vida, então tem que ser uma experiência gostosa, e gosto muito de trabalhos que tem um processo de conversa, de convivência, não é uma coisa que eu quero fazer para terminar e chegar em casa, é algo que quero para sempre.

Você faz “Justiça”, da Globo. Como está sendo esse contato com TV? Você já tinha feito umas participações antes, né…
Eu tinha feito uma participação em um episódio de uma série da HBO, “Psi”, da Laís Bodanzky, e me senti fazendo cinema, estava a Laís ali, na equipe tinha uma galera de cinema que eu conhecia… Só agora, em “Justiça”, que estou tendo uma ideia de TV aberta. É outra coisa. E está sendo ótimo, a equipe e o elenco da série são muito incríveis.

O seu núcleo é a Débora Bloch, o Jesuíta Barbosa…
…Sim, e a Adriana Esteves, que faz a minha amiga! E aí agora estou começando a entender e me aproximar da televisão. Até porque essa série é muito cinematográfica e eu fico feliz que a TV esteja se abrindo para estas experiências.

Se você pudesse pensar em um projeto dos sonhos, que você levaria adiante com dois atores, homens ou mulheres, ele seria para cinema, TV ou teatro? E quem seriam os atores?
Ai! Eu acho que seria no Cinema! Queria muito trabalhar com a Jeanne Moreau, que está bem velhinha. Eu tenho uma coisa com ela, a acho parecida com a minha mãe jovem e às vezes me vejo nela. Tem um filme do [John] Cassavetes que se chama “The Opening Night”, com uma atriz que eu fico muito a fim de encontrar, a Gena Rowlands. Hmm, eu queria que a Lucrecia Martel dirigisse um filme comigo e com a Jeanne Moreau, é isso. (risos) E talvez a história pudesse ser parecida com a de “The Opening Night”, porque, nela, a Gena Rowlands vive essa mulher que faz teatro, então tem teatro dentro do cinema, e ela começa a ver uma menina e se projeta na menina, tem a coisa das duas gerações de atrizes…

Qual é a maior dor e a maior delícia de ser uma artista?
A maior delícia é essa possibilidade de experimentar muitos pontos de vista o tempo todo, você ser múltiplo e, ao mesmo tempo, ser muito você. E tem a ver com representação, com poder colocar várias vozes no mundo! A maior dor é ter que depender de grandes incentivos, no sentido social mesmo. O Brasil ainda menospreza muito seus artistas, que são as cabeças mais utópicas – e elas são importantes para a construção de uma nação, de uma cultura, de uma identidade. Tem que dar voz para essas pessoas. A gente ainda é muito visto como instrumento de entretenimento e o país nos dá pouca voz.

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles | Beleza: Marcela Queiroz – Santa Maquiagem