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Guaiamum

Daniel Ribeiro é cantor, compositor e produtor, nasceu em Brasília e cresceu em São Paulo e é o rosto do projeto Guaiamum.

Você pode falar um pouco sobre sua história com a música? Você faz – e já fez – mil coisas!
(risos) Sempre gostei de música, desde pequeno. Na minha família, ninguém é músico. Tinha uma avó que cantava e estudou canto, tocava sanfona na igreja, fazia culto ao ar livre. Devia ser bem legal! Tinha um órgãozinho elétrico em casa e eu sempre gostei de textura de som, textura é uma coisa da qual gosto em arte de modo geral. Então eu me debruçava em cima do órgão, tocava uma nota e colocava a orelha nele para ouvir… Eu tinha uns quatro anos. Não tenho mais o órgãozinho, infelizmente. Senão ele estaria no disco do Guaiamum! (risos) Aí, uma vez, vi o concerto de um quarteto de cordas da Elisa Fukuda e fiquei alucinado com o cello, queria tocar e ele tinha o dobro do meu tamanho! A gente falou com eles e me disseram para fazer aula de violino e, quando eu estivesse maior, se quisesse, mudaria para o cello. Era outra coisa, claro, mas… Bom, eu fiz violino, mas é um instrumento muito difícil de tocar! Nunca rolou, nunca tive disciplina, é um instrumento que ou você toca bem ou é horrível. (risos)

Depois, estudei saxofone e também não deu certo e, com uns 15 anos, comecei a ouvir Metallica, aí quis tocar guitarra. Tinha um violão velho da minha mãe em casa e falei para ela: “E se eu provar que quero tocar? Vou comprar uma revistinha na banca e aprender sozinho! Aí você me coloca na aula?” E ela topou. Comecei a estudar, fui aprendendo, apareceu um professor, fiz aula em grupo com meus amigos, depois entrei em uma escola de música e acabei indo para a faculdade: estudei Composição e Regência na Santa Marcelina.

Isso tudo aqui em São Paulo.
Tudo em São Paulo. Estudar música foi muito legal e muito ruim também, porque eu sempre gostei da espontaneidade, das coisas que são porque foram e é isso aí, sabe? O pensamento formal, que a gente adquire na faculdade, é muito legal, mas eu não soube lidar muito bem com ele, então acabou me travando. Quando eu estava na faculdade, que durou cinco anos, eu não tinha nenhum trabalho autoral, parei de compor – o que eu fazia toda hora quando era adolescente e que ainda hoje, para mim, é o maior high: pegar o violão ou a guitarra, ter uma ideia e ver se sai alguma coisa. Dá um frio na barriga, é demais. Acho até que gosto mais de compor do que de tocar. Então me deu uma travada, porque ficou muito racional. Mas foi o jeito como eu me relacionei com pensar a música de forma sistemática, mais técnica.

Quando me formei, só um ou dois anos depois que montei minha primeira banda com um amigo de Limeira, chamada Hoping To Collide With, que era de post-rock. A gente era um trio, depois entrou outro guitarrista. O som era bem etéreo, mas tinha folk, coisas com violão, a gente adorava Pink Floyd… E realmente víamos nexo entre as coisas, pra mim dá na mesma ouvir Neil Young e depois ouvir algum CD do Pantera, tanto faz! Eu sempre gostei de coisas meio voltadas para o folk, mas não sabia o que era folk, porque nunca fui muito fã de Bob Dylan ou Joan Baez. Foi só em 2006 que conheci o Iron & Wine e comecei a ouvir Jeff Buckley, Elliott Smith e o Nick Drake, que eu achava que era um cara contemporâneo que fazia um som retrô – eu só conhecia o disco “Pink Moon”, era uma música tão right now… Quando descobri que o disco era de 72, pirei mais ainda, o cara é atemporal, animal. Foi nessa época que entendi que aquilo era folk.

Você se formou na faculdade em que ano? Desde então, tem trabalhado apenas com música?
Foi em 2006. Sim! Comecei dando aulas de violão e guitarra e de inglês, também. Às vezes trabalho com tradução, fiz trabalhos como intérprete técnico para a Time For Fun, então eu passava a semana no Morumbi montando palco da Madonna junto com a equipe, superlegal. Eu colocava capacete e montava o palco com os caras! E deu para fazer uns shows legais, a gente fez o Roger Waters aqui em São Paulo e foi o mais animal de todos, afinal eu gosto de Pink Floyd, bastante! (risos)

Você tem muitas experiências internacionais que foram definitivas no sentido musical pra você?
Em 2006, passei três meses na Irlanda, estava trabalhando com uma ONG. A gente estava em Buncrana, no meio do nada, uma cidadezinha bem ao Norte. Eu nunca voltei de lá. Ficou um pedaço meu lá. Mas, nessa viagem, um amigo me pediu para fazer a trilha do filme que ele estava fazendo pra faculdade, então fui com isso na cabeça, e ele me falou sobre folk. Aí comecei a ouvir essas bandas por acaso, comecei a pesquisar, tocar as músicas… E o ritmo de vida era outro por lá, tinha ócio, eu pegava a bicicleta, ia pra casa ouvindo música… Quando voltei para o Brasil, conheci esse meu amigo, o Rod, e a gente montou a Hoping To Collide With. E essas músicas que eu fiz, do que viria a ser o Guaiamum, continuavam saindo, mas estavam na gaveta. Era um negócio que eu fazia em casa, sozinho.

Você ainda está em alguma banda?
Sim. (risos) A Hoping acabou. Estamos tentando terminar o disco, apesar de a banda ter acabado. Eu cobri uma vez o outro guitarrista desta banda, que tocava num grupo de stoner rock daqui de São Paulo, chamava Pax. Depois ele acabou saindo e entrei no lugar dele. Essa banda foi mudando e virou a Greyskull Chapel, a gente lançou o primeiro disco dois anos atrás. E, ao mesmo tempo, comecei a tocar numa banda chamada Monteventura, a única banda que eu tive em português, era rock, mas a gente misturava muita coisa brasileira, então tinha um blues que era um baião. Parece que blues e baião nasceram para andar juntos, tem a ver um pouco com a sonoridade, faz sentido. É engraçado, se você pegar música nordestina e do Sul dos Estados Unidos, pensando no folk americano, folk misturado com blues, tem temáticas parecidas, tem até aquela lenda do violeiro que vende a alma para o diabo para tocar melhor e, no Sul, tem o cara vai vender a alma para o diabo para tocar bem guitarra, violão e blues… Algumas lendas ecoam!

Queria saber quem é o Daniel das outras bandas – porque sei que você se considera um cara mais do coletivo do que do solo – e quem é o Daniel do Guaiamum?
É a mesma coisa, não muda. A diferença é que, para mim, o Guaiamum é mais custoso, porque eu tenho que fazer sozinho, tenho que tomar as decisões sozinho. Eu gosto de ouvir alguma coisa que alguém me mostra, aí já tenho um monte de ideias… Esse coletivo é muito legal! E o no Guaiamum não, é diferente ter uma ideia em cima da sua ideia. Mas, para mim, é a mesma coisa no sentido de processo criativo: estar em uma banda pode ser mais ou menos autoral. Eu sempre me projeto da forma mais autoral possível, não consigo não dar pitaco.

Algo que me intrigou bastante: como não “cansar” de um projeto que demorou tantos anos para sair? Porque muitos cantores que são compositores dizem que escutam discos deles de quatro ou cinco anos atrás e…
…Não aguentam mais!

É, dizem que não reflete mais quem são hoje. Como você conseguiu botar no disco músicas suas de dez anos atrás?
De certa forma, com o Guaiamum foi fácil esperar dez anos. Eu simplesmente escrevia umas músicas, gostava delas, era uma coisa que eu fazia e que estava lá. O Guaiamum é, para mim, um som muito autoral, é totalmente biográfico, mesmo que eu não esteja cantando sobre algo que aconteceu comigo. Nunca me decepcionei com as músicas que escrevi dez anos atrás, continuo achando-as boas. Vai ver eu não cresci e ainda sou o mesmo cara! (risos)

Aposto que não é o caso! Se você pudesse tocar no festival de música mais foda de todos, com Guaiamum e outros nomes, quem você escolheria?
Não tenho a menor ideia, cara! (risos) Eu não poderia, por exemplo, falar Jeff Buckley, porque se eu fosse tocar na mesma noite que ele, teria um piripaque. Com certeza! Fico tão nervoso quando toco… Até hoje! E nem estou falando sobre dividir o palco. “Se ele me ver tocando, o que vai acontecer? Não dá, não dá!” (risos) Isso me trava, os artistas de quem gosto são, para mim, muito endeusados. Não olho e penso “quero fazer isso aí”, já acho que aquilo eu nunca vou fazer, que é impossível. Mas luto contra isso, porque sei que não posso pensar assim, tenho que olhar e aprender como o cara fez, incorporar o que achar legal e fazer do meu jeito. Mas ver o Jeff Buckley tocar deve ser animal demais!

Você prefere cantar em inglês? Como você se relaciona com isso da língua?
Interessante, eu não achei que isso seria um assunto, mas me perguntam. Para mim é mais natural. Eu tenho meio vergonha de falar, mas conheço muito pouco de música brasileira, conheço algumas coisas do Caetano, do Chico, da Marisa Monte, menos coisas do Milton, do Egberto Gismonti, que não faz música popular, acho que é um erudito popular. Nunca fez parte do meu negócio, nos anos 90 eu ouvia Led Zeppelin, Pink Floyd, Pantera, Metallica, Megadeth, Sepultura – que era a banda brasileira da qual eu gostava! Então nunca tive essa referência, na verdade.

Mas isso não é um problema, só queria saber porque soa mais natural.
É que tem gente que fica ofendida! Eu toquei com um cara uma vez e gostei muito do som, aí fui falar com ele, disse que foi muito legal e que eu ia tocar depois. Ele me desejou bom show, eu toquei e, quando acabou, encontrei o cara e ele estava decepcionado: “Você só canta em inglês?!”. Eu tentei escrever umas duas músicas em português a tempo de colocar no disco, mas não deu. Queria colocar misturado, até pensando no “Cavalo”, do Amarante, que é um disco brasileiro que eu gosto, e ele canta em português, inglês, francês, está tudo misturado ali. Para mim, não faz a menor diferença quando ele muda de uma língua para outra, é orgânica a transição, acho que é um bom exemplo de que não importa a língua na qual o cara está falando.

Como você quer que o Guaiamum esteja daqui a um ano, no meio de 2017?
Talvez eu esteja cansado de tocar as mesmas músicas. Na verdade, comecei a tocar o Guaiamum há um ano, foi em março de 2015 o primeiro show. Daqui a um ano, com certeza vai ter música nova! Estou planejando fazer muitos shows fora de São Paulo, no Sul e no Nordeste… Talvez role agora no Rio de Janeiro, mas quero tocar bastante e fazer uns shows maiores, sair do Brasil… Fazer o máximo que der!

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles