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Karen Jonz

Karen Jonz, skatista tetra-campeã mundial, ilustradora e música, é de Santos (SP).

Quando você descobriu qual era o seu talento? Eu sei que você tem vários, mas…
…Sim, de qual você está falando?! (risos)

Haha! Queria saber se teve um momento de clique na sua cabeça, em que você descobriu qual seria a sua profissão.
Teve – e acho que foi uns dois anos depois de eu ter começado a andar de skate. Quando comecei, não tinham muitas meninas, e depois de um tempo eu percebi que era – é muito arrogante falar isso – um pouco melhor do que a maioria. Tipo, tinha mais facilidade! Algumas meninas que andavam comigo sentiam medo e não desenvolviam. Teve um momento em que comecei a evoluir rápido e tudo o que me propunha a fazer dava certo: “Quero fazer essa manobra.” Aí ia lá e conseguia.

Quantos anos você tinha, mais ou menos?
Uns vinte! Comecei a andar com 17 anos e uns três anos depois passei a participar de campeonatos, aí fui vendo que estava ficando sério. Porque, no início, era diversão, eu não tinha nenhuma pretensão de participar de campeonatos. Mas foi acontecendo e, uma hora, decidi que queria me dedicar àquilo. É que eu sempre fui boa em esportes em geral, sempre gostei, desde pequenininha. Surfava com o meu pai… Tem foto minha com dois anos na prancha com ele! Com uns seis, quase sete, eu já ia sozinha. E na escola eu jogava basquete, handball, futebol. Era de todos os times! Eu estava começando a jogar bola no Corinthians quando passei a andar de skate.

Caraca!
Eu morava em São Bernardo, o Corinthians era aqui em São Paulo e eu tinha que vir e tal, aí fui parando e andando cada vez mais de skate. A gente morava em Santos e nos mudamos para São Paulo, então cada vez menos a eu ia para a praia e, de todos os esportes que praticava, o surfe era o meu preferido. Não sei, acho que encontrei alguma relação entre o surfe e o skate. Fora que eu gostava muito de pessoas e coisas que tivessem relação com skate, gostava do Bart Simpson, do Menino Maluquinho… Todos os personagens que eu ficava desenhando tinham skate. Aí pensei: “Por que não tentar andar?” Então comprei o meu primeiro skate e comecei a andar em Santo André, completamente por diversão, nem sabia que existiam campeonatos! Eu estava no colégio, no final do terceiro ano, e as coisas foram se conectando, fui conhecendo pessoas… Depois de um tempo, me falaram de uma competição e eu disse “mas sou a única menina” e aí disseram que eu podia participar com os meninos. Fui – e fui muito mal, fiquei meio que em último. Isso me deixou muito brava, eu não podia ser tão ruim em alguma coisa! (risos) Aí me esforcei, melhorei… Eu competia com os meninos: se eu chegava para treinar depois, já tinha um cara na pista e ele tinha tirado duas manobras, eu pensava: “Agora vou ficar aqui até dez da noite… Até eu tirar as mesmas manobras.” E aí aprendia.

Você é bem competitiva, então!
Ah, acho que sou! (risos) Na verdade, eu aprendi a perder. Quando vejo que sou muito ruim em algo, já começo a zoar e aí fica pela diversão, de tanto que eu não gosto de perder! Mas acho que, hoje em dia, para mim é muito mais sobre me superar e aprender uma manobra que não sei do que ficar pensando que fulano é melhor do que eu.

Bom, você tem uma relação forte com arte também, com música e artes visuais. Queria que você falasse um pouco sobre este seu lado.
Acho que tem muito a ver com o skate, porque quando comecei a andar, as primeiras revistas de skate que eu vi eram aqueles guias de produto: não tinha nada escrito, só cem rodas em cada página, e eu passava horas folheando aquilo, achava muito louco. O skate tem essa relação com gráfico, com arte, os artistas fazem as coleções das marcas… Para mim, sempre foi algo próximo, que cresceu junto, e as pessoas que conheci quando comecei a andar de skate, todas elas tinha um gosto musical diferente. Só que ao mesmo tempo, em casa, meu pai ouvia música clássica, a minha avó me fez estudar piano clássico…

…Ah, tinha um incentivo em casa?
Tinha, mas era ao contrário, eu fazia piano clássico! E a minha avó me colocou em uma aula de balé e de boas maneiras quando fiz uns 10 anos! (risos) Eu era obrigada a fazer… e não queria! Ela falava pra todo mundo que eu seria Miss Brasil! (risos) Sério. Tanto que o maior desgosto da vida dela foi quando eu comecei a andar de skate e ficava com as canelas todas ferradas, ela falava que não daria mais pra eu ser miss. Cara, a minha avó lavava o meu cabelo com água mineral quando eu era criança… Doida! Como minha mãe fazia Magistério quando eu era pequena, acabava ficando muito com a minha avó.

Então, dentro de casa tinha incentivo artístico, sim, mas era “piano clássico”, era fazer mil vezes o mesmo exercício… O meu pai ouvia Djavan, MPB e muita música clássica também… Quando conheci a galera do skate, que era totalmente roqueira e ouvia umas coisas com as quais eu não estava acostumada, fiquei maluca, achei aquilo muito mais da hora, queria conviver com aquelas pessoas! E existe uma cultura muito forte dos vídeos de skate – hoje em dia nem tanto, mas, antigamente, as marcas passavam muito tempo produzindo um vídeo de skate de manobra e a parte de cada pessoa tinha uma música de uma banda que era provavelmente independente. Eu assistia aos vídeos e ficava tentando descobrir quais eram as músicas. A galera do skate meio que me conhecia porque eu fazia playlists destas músicas e, tipo, quem seria a idiota que se daria a este trabalho, né? (risos) Então o skate tinha essa relação com música… e com cinema também, o Spike Jonze dirigiu um vídeo da Chocolate [Skateboards], tem um monte de caras que são cineastas e skatistas ao mesmo tempo… Tem uns vídeos da Chocolate que foram os primeiros com efeitos, os caras apagavam umas rampas e parecia que o maluco estava pulando em um negócio que não existia, colocavam ao contrário… Era muito pela criatividade e eu achava isso bem massa.

Você conquistou títulos para mulheres que mulheres ainda não haviam conquistado por aqui. Isso, obviamente, inspira muitas meninas.
Não fico pensando nessas coisas, às vezes fico até surpresa quando dizem que sou uma inspiração… Falo: “Se você soubesse a tosqueira que eu sou, não diria isso!” Mas bastante gente fala e, na verdade, títulos no skate são uma coisa até meio gongada, é meio ridículo você competir para ganhar algo e ser o primeiro, ser campeão. Acho que os títulos serviram mais para abrir os olhos das pessoas que não são do skate e que, antes, me tratavam com indiferença: “Nossa, e esta menina suja e fedida chegando aqui?” Não tratavam com respeito, mas depois mudou para: “Ah não, ela é suja, é fedida, mas é campeã, então pode sentar com a gente.” Então isso acabou abrindo algumas portas…

…Não só para você, mas pra uma porrada de gente.
É. Não sei fora do skate, eu realmente não sou de ter noção da proporção das coisas. Às vezes as pessoas falam “mas isso é muito importante” e eu nem sei, não fico me ligando muito. Acho que pode ser um pouco de baixa autoestima, sabia? Porque você fica pensando que “não, o que eu faço nem é tão legal e importante” quando, na verdade, é.

Bom, pode ser apenas pé no chão…
Ah, não sei, acho que varia de pessoa para pessoa.

Queria saber se você tem um grande sonho. Você pensa muito no futuro?
Eu não comecei a fazer nada na vida pensando muito sobre aquilo. Não comecei a andar de skate porque alguma menina me inspirava e eu queria ser igual a ela. Foi natural, um dia após o outro, eu gostava do que estava fazendo, fui crescendo e aí, de repente, começou a rolar um reconhecimento e fui me destacando, mas porque era algo que eu sempre amei muito fazer. Com os desenhos também, eu fazia um sketchbook e tinha vergonha de mostrar para as pessoas, aí alguém via, falava que era muito legal e me incentivava a mostrar. Teve uma fase em que eu fazia muitas exposições e estava direto na Europa por causa de campeonatos, aí também fazia exposições por lá… Se quisesse de verdade ter tomado esse caminho, talvez fosse uma opção. E com a música também, sempre foi totalmente sem pretensão nenhuma, uma época eu tinha uma banda, a Violeta Ping Pong, com uma galera do skate. Começamos a fazer pensando “vamos só ver até onde isso vai”, aí fizemos umas músicas bem horrorosas e, de repente, já tinha um monte de gente que era fã, algumas músicas começaram a aparecer em vídeos de skate, as pessoas pediam pra colocar na abertura do DVD tal…

Mas, voltando, eu lembro que, quando pequena, era muito fã do Merlin e da Maga Patalógika e falava que “quando eu for velha, quero ser uma velha bruxa” – e continuo querendo isso! Quero ser uma velha que saiba das coisas, porque ter coisas, quando eu tiver 80 anos, foda-se, ter coisas não vai fazer diferença nenhuma, e agora eu tenho uma filha [Sky, de cinco meses] e, quando eu tiver netos ou bisnetos, quero saber o que fazer quando eles tiverem problemas, saber como agir para ter essas pessoas ao meu redor e conseguir fazer as coisas! Isso, para mim, é ser uma velha bruxa. Não quero ficar gagá, quero que meus netos, quando forem na minha casa me visitar, que seja um dia muito feliz para eles, “vamos visitar a vovó e fazer poções e alquimias com ela”, sabe? Quando eu era criança, pensava: “Como é que o meu pai sabe tanto das coisas?” Ele sabia até se estaria frio ou não lá fora… Eu pensava: “Gente, ele é bruxo!” (risos)

Você tem vontade de envelhecer sem envelhecer, é isso?
Acho que não é isso, porque eu já estou no formol, isso eu já conquistei aos 30 anos! (risos) Mas, com 80, eu espero ter tido muito tempo para ler muitos livros e adquirido muito conhecimento, sem esquecê-lo e sabendo como aplicá-lo. E, tipo, só uma pessoa velha consegue fazer isso! A minha irmã, por exemplo, é mais nova do que eu, mas parece mais velha. São três anos de diferença. Eu acho que o ser jovem eu já conquistei, porque a minha família é o retrato da geração millenium. A minha avó – falei muito da minha avó nessa entrevista, não sei porquê – outro dia disse assim: “Nossa, quem vê você na rua fala ‘ai, coitada, tão nova e com filho!'” (risos) Então a juventude está mantida agora. Depois eu quero é ser uma velha daquelas com o cabelo bem branquinho – e que sabe muito das coisas!

Você consegue escolher uma inspiração no esporte e uma na arte?
Inspiração no esporte, para mim, atualmente, é um menino que anda lá em São Bernardo, ele se chama Marquinhos, tem paralisia em uma perna e não consegue falar direito. Sempre ando com ele. Ele deve ter uns 20 e poucos anos. Cada vez que vou lá ele está andando melhor, aprendeu a dropar a rampa baixa, agora aprendeu a dropar a alta… Ele cai feio, aí levanta dando risada… E está sempre na melhor vibe possível, sempre se superando.

E na música? Alguém que você ache foda!
Ultimamente, minhas maiores referências vêm de uma galera meio nova, tem o Mark Ryden, a Camilla d’Errico… Eles são artistas pop surrealistas, fazem uns desenhos como se fossem fotos, bem realistas, só que de personagens e coisas meio bizarras. O Mark tem o desenho de uma menina com o vestidinho todo de carne e provavelmente a Lady Gaga tirou a inspiração pra fazer o vestido dela dali. Eles têm muita técnica e usam sua habilidade para criar algo e às vezes até enfiar algum elemento pop no meio, uma Alice no País das Maravilhas, um Mickey, uma Hello Kitty…

Você se formou em Design Gráfico e Rádio e TV. E começou a fazer Moda. Você gosta muito de estudar?
Gosto. Eu gosto demais de ler, apesar de que, a cada ano que passa, o meu cérebro retém menos informação. Acho que já fui um pouco mais esperta do que sou hoje. Nossa, e na gravidez? Parece que a gente fica com um cérebro de geleca, você esquece tudo! Teve um dia, durante a primeira semana depois de eu ter descoberto que estava grávida, que juro por Deus que achei ter esquecido como falava português! (risos) Eu deitava no sofá e dizia: “Eu só consigo falar inglês!” Deu alguma coisa no meu cérebro!

Se você trabalhasse com algo diferente e o seu emprego tivesse a ver com alguma destas faculdades, o que imagina que seria?
Eu não conseguiria escolher uma coisa só. Na verdade, acho que, se eu não andasse de skate, a minha segunda opção seria a música!

A sua filhinha está desde nova ali na pista de skate que você construiu na sua casa e no estúdio de gravação que vocês também têm em casa. É claro que ela vai ser o que quiser, mas, se você pudesse escolher, iria preferir que ela fosse skatista ou música?
(risos) Não sei! Acho que música, porque skatista se machuca muito!

Você tem alma de artista. Qual é a maior dor e a maior delícia de ser uma artista?
A maior dor é o excesso de sensibilidade para certas coisas – e a falta de noção para algumas também, porque às vezes eu esqueço de ter o pé no chão e fico com a cabeça nas nuvens. E a maior delícia acho que é exatamente a mesma coisa, a falta de noção…

…Que acaba te levando para todos os lugares!

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles