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Vanessa Rozan

Vanessa Rozan, maquiadora e proprietária do Liceu de Maquiagem, é paulistana.

Olhando pra trás, de onde você está agora, dá pra apontar o momento em que você entendeu qual era o seu talento e que ele seria a sua profissão? Foi durante o seu ano sabático?
Não, não foi. Porque eu estava muito perdida – e acho que demorou alguns anos, pelo menos uns três depois que comecei a fazer isso, para eu entender que aquilo era uma profissão e que daria para ganhar dinheiro. Porque, até então, eu fui fazendo sem pensar muito, estava lidando com o agora, não tinha um planejamento. Fiz o curso no SENAC nesse meu ano sabático porque eu estava antes trabalhando em uma house dentro do Itaú Seguros, que era uma agência de publicidade interna, enfim, meio que já tinha esse plano de carreira: estava em uma empresa grande, entrei como estagiária, depois fui promovida para assistente, fui crescendo lá dentro e, quando resolvi sair, porque percebi que não era aquilo, também não sabia muito o que era.

Fui fazer o curso de maquiagem como uma alternativa ao de fotografia, que era mais longo e mais caro para mim naquele momento. Então não foi muito “fiz um curso, agora sou maquiadora.” Isso nunca passou pela minha cabeça! Lembro que estava trabalhando na MAC, já era treinadora, já estava viajando, trabalhando com isso como emprego primário, e eu chegava para preencher a fichinha da Embratur e colocava publicitária como profissão. (risos) Porque, pra mim, não era uma profissão – não por um preconceito de achar que maquiar não era profissão, mas a minha cabeça ainda não tinha entendido que era aquilo o que eu fazia. Demorou um tempo para eu entender! Acho que, por ter pais que tiveram uma empresa – e tem até hoje -, cresci dentro desse ambiente: meu pai é muito empreendedor e, junto com a minha mãe, sempre trabalharam sozinhos, então eu fui meio que administrando isso que estava acontecendo, como se eu fosse uma pequena empresa. Eu ia aprendendo com as coisas às quais estava sendo exposta ali na MAC, todos os desfiles, os treinamentos internacionais, as viagens, enfim, os convidados que vinham para o Brasil… Ia vendo e detectando as necessidades do mercado. Aí percebi que as pessoas não tinham muito um lugar onde encontrar formação, uma unanimidade com relação a escola. Claro, tinha o SENAC, que sempre foi muito presente na nossa vida, foi a primeira escola de maquiagem com técnico profissionalizante, mas eu percebia algo tipo: “Ah, queria uma coisa mais atual, que me ensinasse técnicas mais atuais, onde eu pudesse ter uma continuidade de aprendizado.” Isso vinha tanto de quem pensava em trabalhar com maquiagem quanto de quem queria aprender a se maquiar e ainda não era da geração tutorial. Isso foi antes do blogs de maquiagem.

Hoje a gente tem um milhão de tutoriais! Você entra lá, digita “como fazer um olho preto”, aí se vira entre dez que aparecem e vai aprender, mas, há uns sete anos, quando o Liceu apareceu, ou até mais tempo, quando eu trabalhava na MAC, isso era uma informação meio perdida. Era aquele gap de gerações entre as mães que trabalhavam e que não ficavam ensinando as filhas como se maquiar dentro de casa e as meninas mais jovens, que já estavam inseridas nesse universo dos blogs, que nasceram na internet e tinham essa informação. Então digamos que eu pesquei essa falta que existia de informação e fiz dela um produto, que virou uma escola de maquiagem, depois uma escola de formação, junto com o salão, e a coisa foi crescendo organicamente, conforme eu sentia necessidade. As pessoas diziam: “Poxa, eu adoraria ser maquiadora, aprender com você.” E eu já fazia isso para a MAC, então fazer para o meu próprio negócio era uma transição fácil.

Você conhece a Nasty Gal, a empresa de moda norte-americana? A CEO, Sophia, lançou um livro esses tempos que se chama #Girlboss, em que conta um pouco da sua trajetória de reinvenção. Ela me lembra um pouco você, não sei bem por quê. Queria saber, pensando na sua trajetória como empresária e empreendedora, se existe algo a ser dito a uma mulher que esteja tentando andar com as próprias pernas e, por algum motivo, esteja fraquejando, a ponto de desistir.
O que acontece demais é que muitas se pegam no “agora, vai! Agora eu vou mudar de carreira, vou fazer isso e aquilo”, quando não se pode ter esse pensamento. No sentido de que você nunca sabe quando vai… e se vai. A gente vive em um mundo onde falir ou errar é mortal, né? Somos condenados.

Ao mesmo tempo, falir ou errar é super possível… E até provável!
Claro, mas ninguém fala sobre isso, né? Porque é um assunto proibido. Todo mundo só fala sobre o que deu certo, sobre o que é maravilhoso, todo mundo tem um filtro de Instagram, uma vida incrível… Então é muito difícil quando você fala que “agora vai”. Para mim nunca funcionou, porque é um statement tipo “nossa, o que eu estou fazendo está dando certo” e eu nunca senti isso, em nenhum momento e nem hoje.

É mesmo?
Não, nunca! Fui fazendo a coisa muito organicamente, com aquilo que cada um vai chamar de um jeito: instinto, olhar, análise de observação, não sei exatamente o que foi, sei lá, um sétimo sentido! (risos) Fazendo aquilo que eu achava que poderia funcionar. Mas eu nunca olho algo pensando “nossa, uau, que incrível o que eu fiz, foi nesse momento que deu certo”. Pra mim, todo dia é dia de fazer a coisa dar certo, pra mim é muito viver no agora. Acho que quem está projetando algo, ou está no “por que não deu certo?”, tem que focar no presente. Somos convidados a ir para o futuro o tempo todo, na projeção do que a gente tem que ser, então temos que estar no hoje e perceber o que acontece ao seu redor, o que você efetivamente tem. Pode parecer balela budista, mas, se você consegue se colocar neste modo de operação, a coisa tem mais chances de fluir. Porque se não está rolando e estivermos no agora, as chances de mudar isto – ao invés de ficar amargando uma aceitação de derrota – são maiores. Por exemplo: eu nunca fiz business plan para o Liceu. Lembro de uma funcionária que falava muito que “a gente tem que ter um plano para daqui cinco, dez anos” e eu pensava “não vou ter um plano”! O que está acontecendo é o agora, o amanhã, o mercado muda, as vontades, as paixões e os desejos mudam, as tendências… Não vou ficar gastando um tempo do hoje para projetar uma coisa que é muito volúvel. É claro que existe um planejamento mínimo, uma agenda, mas eu trabalho muito com prazos mais curtos e mais possíveis de serem alcançados.

O que você ama mais? Beleza ou criatividade?
Ai… (risos) Que difícil! (silêncio) Não sei te dizer. Porque podem ser a mesma coisa em algum momento, acho. Não são excludentes, podem vir acompanhados, não são antônimos. “Feiura” pode ter criatividade e ser legal, no sentido de usarmos a palavra contrária à beleza. E a não-criatividade pode ser bonita, enfim. Não consigo escolher. Não sou muito boa “de escolher”, na verdade! (risos) Vou pensar com mais calma, posso?

Pode! Como é a sua relação com as cores? Você se considera uma apaixonada por cores?
Fui estudar mais sobre cores porque, apesar de ter feito faculdade de Comunicação Social com ênfase em Publicidade e ter visto tudo isso, fui fazer Artes Plásticas – que, para mim, funcionou como curso de extensão, para que eu pudesse trabalhar mais profundamente com cor, material, volume, textura, com toda a parte da História da Arte, que era muito interessante para mim. Nessa época, eu já estava ministrando treinamento pela MAC, então ter uma informação que fosse mais acadêmica sobre cores era importante, mais do que sensorial naquele momento. E eu lembro que, quando fiz o curso de cabelos, que foi o primeiro curso que fiz quando tirei meu ano sabático – não fiz curso de maquiagem, fiz primeiro um curso técnico de cabelos no SENAC -, o que eu mais gostava era a parte de colorimetria.

Eu nem sabia nada de nada, eu era apenas mais uma publicitária no mercado, infeliz com a sua situação, e eu amava muito colorimetria de cabelo, achava mágico a forma como aquilo fazia acontecer, como mudava a cor do cabelo, neutralizava, consertava. A minha primeira grande paixão foi ver como é que a cor aplicada causava algo no outro, uma sensação no outro. E me lembro que, neste curso, eram vários módulos: corte, colorimetria, luzes, permanente, penteado… E eu só queria fazer aquele, não queria mudar de módulo, porque amava todo o universo, ver a cor em ação…

Enquanto publicitária, eu via a cor no computador, fazia layouts, trabalhava com diagramação e tudo, mas não estava em contato com a cor e, quando ela vai da tela para o pigmento e você a mistura, a vê realmente acontecer, nossa, aquilo foi muito rico para mim. Tanto que, no Liceu, a aula que eu continuo dando em todas as turmas é essa, sou eu quem dou! Aconteça o que acontecer eu sou a pessoa que dou Teoria das Cores, amo dar essa aula! Todas as turmas, desde a primeira. Exceto, é claro, em casos de doença ou algo assim, mas é uma aula que eu gosto muito de dar, um tema do qual gosto de falar – e gosto de ver a reação dos alunos quando eles pegam aquela cor de pigmento, que é material, né, porque estamos mais habituados à cor aplicada em alguma coisa, e misturam essa cor com alguma outra. A gente tem um exercício que é “faça uma cor de base usando três cores de aquarela”, com as cores primárias, vermelho, amarelo e azul, aí fico vendo como eles chegam no “nossa, dá pra fazer qualquer cor!”. Esse aprendizado, que é ridículo na categoria dos aprendizados da vida, faz o aluno olhar a maquiagem sob o aspecto da alquimia, da mistura. Ele não tem que ter todos os produtos, não tem que ter todas as cores… Não tem que sair comprando compulsivamente. Ele precisa olhar para o produto como uma fórmula que tem pigmentos de cor. Essa fórmula pode ser misturada a outra fórmula… e resultar em outras coisas.

Isso é muito legal!
Muita gente que faz curso de maquiagem só pensa em comprar. Eu falo “gente, não comprem nada! Você antes têm que aprender a usar”. Eu já trabalhei com diversas marcas, de níveis de escalonamento diferentes, e com todas elas consegui executar o meu trabalho. É tudo sobre o jeito como você olha para o pigmento e o mistura para chegar a outro lugar. Se você consegue sair desse estigma do maquiador e olhar a profissão como um embelezador de pessoas que mistura cores e produtos para conseguir um efeito, a coisa anda bem mais fácil!

Você gosta muito de estudar, né? Dá pra perceber por conta da sua segunda faculdade, das suas extensões… Por que você escolheu estudar Semiótica na sua pós e no seu mestrado?
Semiótica foi uma das matérias que eu mais gostei na ESPM, quando estudei lá, junto com Fotografia, Administração, Psicanálise e algumas outras. Quando decidi voltar a estudar, não sabia muito com o que começar, então fiz vários cursos pequenos na PUC, de quatro meses, outros livres, sobre Eutonia do Corpo, Psicanálise, fui fazendo, “vamos lá”. E aí, um certo dia, eu entrei na sala de um curso desse tipo e gostei. Procurei saber mais sobre ele, que se chama “Semiótica Psicanalítica”, da PUC, é lato sensu, uma extensão. Vi o conteúdo, escrevi um projeto, mandei. Depois de dez anos “sem estudar”, quer dizer, sem voltar para faculdade, já que eu tinha feito outros cursos. Aí o projeto foi aceito, comecei a frequentar as aulas e a gostar delas. Me interessei pelos assuntos e fui entendendo mais de semiótica e psicanálise.

Depois, peguei isso e apliquei a um dos objetos com que trabalho, que é a revista de moda feminina. A análise era como é que a gente entende que o corpo da mulher que está na revista foi alterado – mesmo que minimamente -, porque a gente sabe que foi, todos os “consumidores” daquele produto sabem disso (estou falando das revistas femininas tipo Claudia, Vogue, Elle, Marie Claire, todas essas) -, e mesmo assim a gente olha para aquilo e, em alguma parte da nossa cabeça, existe um “ai…”, algo dizendo que é uma coisa possível, e isso é algo reiterado todos os dias, porque, antes, quando eu estava estudando, era a revista, agora é Instagram, Snapchat, enfim, tudo o que você vê que não existe – ou melhor, existe e foi alterado -, mas que a gente ainda leva como uma possibilidade do real. Você compra a revista “A Forma do Corpo”, sei lá, aí você vê que a fulana emagreceu não sei quantos quilos após a gravidez. E olha que nem precisa ser revista feminina, às vezes você encontra isso nas publicações de assuntos sociais, enfim, aí tem lá que “após tantos dias do nascimento do bebê, o corpo dela já voltou”, quer dizer, seria uma agressão se a gente não considerasse “uau”. As aulas foram me acordando para esse olhar e, como eu estava nesse meio, fiquei como uma “espiã”, olhando o que estava acontecendo de dentro para poder fazer uma análise de fora. E isso é bom, porque não me deixa entrar…

…Nessa pira.
É, nessa loucura. Porque é uma pira. E quem trabalha com isso, como a gente, por reiteração, por reforço, vai achando que é normal. E então a menina de 16 anos, que é modelo e que é magra porque é, porque é da constituição dela, que não tem celulite e que é 1/4 da população, sei lá, então ela é o padrão. Daí a gente vai usar essa menina, mas pra vender revista para mulheres de 40, tá? Mas a menina tem 16, tudo bem pra vocês? E aí você vai achando que isso é normal. E você chega em casa depois de um dia de foto, em que a menina estava de biquíni na praia, se olha no espelho e pensa: “Tem alguma coisa errada comigo, eu que não estou certa.” Né? Porque é um reforço que vem pra gente desde que somos tão pequenas, algo tão ordenado, que a gente “já entendeu”, não tem uma discussão sobre isso, está em todos os lugares, na publicidade, no produto que você compra, no que você come, enfim. Queria escapar disso, achar um meio de questionar isso. Porque como maquiadora eu não podia discutir muito, então eu tive que encontrar um lugar. Foi quando decidi realmente escrever a tese, entreguei a pós-graduação e, no meio dela, a Pina nasceu, mas mesmo assim eu entreguei.

Passado um ano, com a Pina já um pouco maior, voltei para fazer o Mestrado e continuar o assunto. Mas agora eu escolhi o objeto “Instagram”. Então, para mim, é um jeito de me revoltar, sabe? (risos) Preciso falar alguma coisa sobre isso, porque não é possível, a gente não pode simplesmente achar que “eu sou o problema”!

E não somos, né? Você estava falando e eu fiquei aqui pensando, também com base na minha experiência com revista. Sempre achei muito estranho quando um erro muito bizarro de manipulação de imagem sai em uma capa, porque é muita gente na redação olhando para aquilo e não enxergando. Acho que tem um pouco a ver com o que você disse, porque trabalhamos com isso, então vira “normal”…
…Sim, vira a regra!

Exatamente! E aí um grupo de cinco, dez pessoas não consegue ver que algo está além do ponto, está feio, está errado.
Porque o olhar vai acostumando. A gente se acostuma a tudo, a barbaridades, a exceções… Acredito que hoje exista uma discussão muito mais importante com relação ao corpo, principalmente nas redes sociais, e a gente tem vários grupos de meninas preocupadas com isso. E aí uma das minhas ideias era entender se o Instagram possibilitou que a gente veja outros corpos enquanto mulher. Quer dizer: será que o fato de a gente, hoje, ter uma rede que não é controlada por poucos faz com que a menina que tenha a bunda mais larga tenha chance, a que tem a cintura mais fina, o peito mais caído… Elas tem a chance de aparecer, porque a conta é delas e elas postam o que quiserem. É essa a análise.

Você está fazendo isso agora, certo?
Sim, estou no terceiro semestre!

Isso é interessante demais. Tão atual, tão quente. E não só para as mulheres, para os homens também…
Para os homens também! Quando fui fazer a pós, comecei a estudar História da Fotografia e da Moda, principalmente no Brasil – lá fora também, claro, porque é um reflexo -, e vi, por exemplo, o tanto que a gente foi levando esse corpo, que era o corpo da pornografia, da revista masculina, para o universo do feminino, das revistas femininas, essa sexualização do corpo. Entender como funcionava isso era uma coisa que me angustiava. Se você não tem uma verdadeira pergunta, não vale a pena fazer um Mestrado. Uma verdadeira angústia, uma coisa que te faz questionar. Porque escrever só por escrever é insuportável, fica chato de fazer.

E quanto tempo vai durar esse processo?
Dois anos e meio. Agora estou naquele ano de “fazer”!

Poxa, boa sorte! Bom, vamos lá. Conte sobre a sua websérie!
Eu e a Fabi (Gomes) somos amigas desde que eu entrei na MAC. Isso já tem 15 anos! Eu a vi ter filhos, depois ela me viu grávida… Bom, eu saí da MAC, ela ficou no meu lugar, a gente faz a mesma coisa, a gente mantêm uma relação de amizade e companheirismo mesmo trabalhando em lugares diferentes, o que poderia ser, na indústria da moda, uma relação de competição. E com a gente não tem isso, temos uma amizade incrível, de se ligar, se falar, de sair, conversar, dar risada, como todos os amigos fazem. E às vezes você não vira para o seu amigo e diz “gente, alguém tinha que filmar isso”? Foi o que aconteceu! Achamos que tínhamos que fazer uma série que fosse a completa desglamourização da profissão maquiador. Porque essas “novas” profissões – maquiador ganhou um verniz mais brilhante – vêm juntas àqueles nomes tipo “hair stylist”, que nada mais é do que cabeleireiro, ou makeup artist… Essa coisa vem acontecendo agora, e é do nosso capitalismo, reflete aquilo que as pessoas vão buscar na nossa profissão: “Ah, eu quero ser famosa, quero ter seguidores no Instagram, maquiar celebridades, estar na televisão…” E a gente resolveu que tinha que falar a real! Então a série mostra a gente carregando mala, não estamos produzidas, mostra a nossa roupa como ela é – não tem ninguém pensando em colocar o figurino tal -, o nosso cabelo como ele é… Eu não fiz uma escova, nem a Fabi. Ou seja: a vida como ela é, dentro da nossa realidade, que é a de maquiadoras como a Fabi, que trabalha na MAC, e eu, que hoje sou a maquiadora da Vult e tenho a minha escola, enfim, gente que trabalha no mundo da moda, mas que também se vê um pouco fora dele!

Bom, a gente tinha a ideia, mas não sabíamos se estávamos sendo muito pretensiosas, aí falamos com a Camila Guerreiro, uma pessoa com quem qual a gente sempre trabalhou e se identificou muito, e falamos: “Camila, queremos fazer isso. Você topa? Na raça, não temos patrocínio, só temos uma ideia.” E ela topou! Ela mora em Londres e, quando vem, a gente grava. Começamos a gravar um pouco sem saber sobre a linguagem, fomos fazendo alguns episódios e guardamos o material. Aí pensamos em tentar vender para alguma empresa ou o que faríamos com aquilo, para pode viabilizar. Em um certo momento, a Camila disse: “Vamos fazer nós mesmas, damos um jeito, a gente racha o básico e vemos o que acontece.” Aí resolvemos colocar o que estava gravado no ar!

Que legal! E está dando certo, né? As pessoas estão gostando. Quantos episódios vocês já têm?
Temos cinco gravados e vamos fazer mais uns cinco. Muita gente falou, compartilhou, escreveu, comentou… E a gente percebe que a nossa profissão, como você também deve sentir em algum momento, está no meio desse debate entre jornalista e blogueira, sabe? Tipo: “Ah, mas estudou? Não estudou? Está querendo vender alguma coisa? Ou não?” As linhas não estão mais definidas, então a gente às vezes sente a mesma coisa com relação às blogueiras de maquiagem: como é isso? Elas estão fazendo nelas mesmas? A gente lida com isso? Enfim. Pensamos em fazer algo que fosse o completo oposto, nada de tutorial, nada de parada em frente ao espelho, de fazer a linda. Não é nenhuma crítica a quem faz isso, porque acho que tem o seu mérito e o seu público!

Sim, é só um caminho diferente.
Fomos procurar o que era real pra gente. E foi daí que veio a série!

Quem você gostaria muito de maquiar e quem você queria muito que te maquiasse um dia?
É difícil um maquiador imaginar alguém que vá te maquiar, porque maquiadora que faz maquiagem em si mesma já sabe o que funciona melhor nela, né? É claro que eventualmente eu vou gravar e tem uma maquiadora lá – e eu sempre deixo fazer, assim como sempre deixei todos que passaram pelo Esquadrão (da Moda) me maquiarem, mas às vezes eu ficava incomodada, ia no banheiro, acertava alguma coisa… (risos) Porque é o meu rosto, né? Bom, quem eu gostaria que me maquiasse… Eu gostaria de ver algumas pessoas maquiando alguém, que pode ser eu…

…Eu ia falar isso, pode ser alguém que te encante muito, que você gostaria de ver em ação!
Ah, tem vários! Eu já trabalhei com muitos, tem um cara que chama Terry Barber, ele é um maquiador londrino que trabalha com a MAC. Para mim, ele consegue usar a maquiagem e fazer dela uma história: ele faz um desfile e você percebe como a cabeça do cara trabalhou e subverteu em cima de um clássico, de algo que já foi feito, e fez uma outra coisa. Ele é incrível. Fica mais rico do que uma “cara de bonita”, ele faz daquilo um universo de riqueza, de referência, faz você querer saber de quem ele está falando, de que momento é, qual cena é aquela. Ele tem muito repertório para contar. A Val Garland também! Fiz um curso online com ela e foi muito legal, em uma escola que se chama Mastered, e ela também tem essa capacidade de contar uma história que te faz sonhar de novo com a maquiagem, ao invés de ficar aquela coisa comercial, mas que também não vai para a loucura. E uma pessoa com quem eu nunca trabalhei, mas gostaria muito de trabalhar, é claro, é com a Pat McGrath, que é uma das mulheres mais importantes do nosso tempo. Já está fazendo maquiagem há vinte anos e é hors concours na minha opinião. Gostaria muito de um dia trabalhar com ela! Ela nem precisa me maquiar, só de vê-la maquiando alguém eu já ficaria super feliz!

E tem algum rosto que você gostaria de maquiar um dia?
Olha, eu já fiz bastante coisa muito legal, que eu nunca imaginei que faria, fiz Semana de Moda de Paris, entrei em vários backstages, trabalhei com maquiadores com quem nunca imaginei que trabalharia, mas acho que, se tivesse alguma pessoa que eu pudesse escolher no mundo para aprender e ver, teria sido com o Max Factor. Ele veio de uma profissão que não tinha nada a ver com o que ele fez no fim, depois começou como peruqueiro, daí foi trabalhar em Hollywood com isso e, no fim, ele era o grande mentor das celebridades. Ele inventou uma máquina que era colocada na cabeça das pessoas pra arrumar a simetria do rosto! Ele deve ter criado muita coisa, feito muito ali naqueles estúdios de gravação, com mulheres como a Marlene Dietrich, com a Joan Crawford… Viveu demais. Eu amaria que a gente tivesse esse material para ver!

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles