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Felipe Cordeiro

Felipe Cordeiro, 32 anos, é compositor e cantor. Nasceu em Belém (PA).

Desde quando música é a sua realidade?
Eu sou de uma família de músicos. Meu pai (Manoel Cordeiro) e alguns irmãos dele foram e são músicos de profissão, mesmo, de compor, de trabalhar com isso. Então eu convivo com o lance da música como algo muito forte, não só de ouvir, mas de viver os processos, as rodas de gravação, serestas, shows… Mas eu mesmo comecei a entrar mais ativamente nisso quando entrei na escola de música, aos 11 anos. Fiquei até os 16 e estudei piano, bandolim, teoria… Aí saí e entrei na faculdade de Filosofia! Quando isso aconteceu, parei de estudar música e comecei a viver um outro lado da vida de músico, já fazendo, compondo, é aí que começa uma certa carreira, com 16 anos, quando comecei a compor para festivais. Eu era o cara que tocava violão e acompanhava os cantores e cantoras. Quando saí da universidade, em 2009, assumi uma carreira mais robusta, cantando as minhas músicas e gravando o meu primeiro disco.

E isso foi lá no Pará.
Tudo isso foi no Pará. Na época em que eu participava de festivais, visitava vários lugares em São Paulo, no Nordeste, na Amazônia e muitos em Belém, mesmo. E quando eu estava me treinando para gravar o “Kitsch Pop Cult”, em 2009, já fazia essas viagens, ou seja, já estava rolando uma certa projeção para além de lá.

Então não teve isso de “perceber” que a música era o seu caminho. Foi bem um processo.
Embora tenha acontecido desde sempre, teve um período da faculdade em que eu pensei em seguir a carreira de professor. Eu queria isso quando entrei. E até muito pouco tempo antes de sair, pensei em conciliar as duas atividades. Eu me inspirava em uns caras tipo o Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit… Eles tinham discos e uma carreira musical, mas eram professores. Mas, aos poucos, a música foi tomando uma dimensão e exigindo uma dedicação muito maior, o que foi assumido mesmo no último ano da faculdade. Quando saí de lá, me sentia um músico profissional.

Que coisa boa! Quem sai da faculdade e no dia seguinte já sabe quem realmente é e o que quer? Quase ninguém!
É! Ao longo do último ano eu já estava meio que decidido, sabendo que eu terminaria o curso e que seria músico de profissão.

Você me contou como começou. Existe uma linha de chegada na sua cabeça para a sua carreira?
Eu não quero parar! Quero estar que nem a Dona Onete e a Elza Soares, sempre no palco, dançando! Quando eu olho para estas moças, vejo uma força muito maior. Não vou parar, não tem esse lance. É isso que você está perguntando?

Na verdade, não. Não quero saber o momento do “já deu pra mim”. Quando você chegar onde a Elza Soares está agora, você quer estar como ela? Como você se imagina?
Olha, existem sonhos! Alguns deles já acontecem, outros estão por desabrochar. Acho que a vontade de pertencer a uma realidade nacional da música, de poder dialogar com diferentes vertentes musicais brasileiras, transitar entre mundos, públicos, cidades e olhares de Brasil, este é um sonho que eu tinha anos atrás e que já começa a acontecer. É algo que eu pretendo intensificar e tornar mais amplo, quero conviver com estes cantos do Brasil, que isso interfira no meu corpo, na minha música e na minha maneira de olhar o mundo. Eu não gosto de fazer planos a longo prazo, mas fico projetando coisas mais próximas. Isto é algo que eu pretendo sempre fazer.

“O brega é um gênero, não um adjetivo.” Gosto muito dessa frase sua. Você pode falar sobre a força que esta afirmação tem na sua vida?
Eu falo isso na perspectiva de uma pessoa que vem do Pará. Porque o Brega é um adjetivo: você pode dizer que aquela roupa ou comportamento ou música é brega, certo? Está dizendo que aquilo é cafona. Em música, nas décadas de 60 e 70, isso veio muito à tona na cultura brasileira, o “chique versus cafona”. Tinha esse debate, da MPB de um lado e a cultura popularesca do outro. Não é disso que estou falando. No Pará, brega é isso, ó (faz o ritmo com as mãos e os pés). É isso e tão somente isso. O documentário “Brega S/A”, do Vladimir Cunha, explica muito bem esta questão. Ou seja, o brega lá virou um gênero, com uma levada musical própria, um estilo de canção próprio, um baile próprio, uma dança própria, que tem a ver com gerações e gerações. Desde as décadas de 50 e 60, a aparelhagem rolando nos subúrbios tocava músicas caribenhas, em determinado momento assimilando a Jovem Guarda e os cantores românticos de 70. Isso acelerou lá nos anos 80 e virou essa levada, que tem a bateria característica do brega, que vem lá de trás, do Elvis Presley, etc. Este é o brega paraense! Quando eu falo que o brega é um gênero e não um adjetivo, estou colocando deste ponto de vista. E é a estética desta música que se incorpora ao meu som e flerta com new wave, surf music… e vai embora!

Vamos falar sobre inspirações, primeiro em um processo de composição. Quem te inspira, como as coisas te inspiram?
Acho que os momentos da vida, os olhares. A agudez de olhar para o país, esses intercâmbios culturais que existem por aqui. Isso é algo que me interessa muito, como ser humano, como brasileiro e como artista. Quando levanto esse papo do brega, por exemplo, não é qualquer assunto. Pra mim, é algo que expressa muito sobre olhares do país, sobre lutas de classes, lutas de olhares estéticos. Mas é também uma vontade de provocar, sabendo que esta palavra é polêmica e incomoda um pouco. O “Kitsch Pop Cult” era muito isso de colocar algo que nunca foi aceito em um patamar de inevitavelmente aceito, sabe? Muitos críticos assinalaram este ponto na época – e não à toa, porque era uma intenção do disco. Lembro que, naquela altura, em 2009, alguns termos não se usavam muito, “kitsch” era um deles, e o próprio “cult” era algo que estava aí sendo usado de um jeito quase pejorativo por uma galera: tinha o cult do filme dos anos 80, mas tinha também uma coisa de “ah, aquilo ali é só o fetiche daquela estética”. Como é algo que acontece hoje com lambada, com tecnobrega… Acontece com funk! Tira do mundo que é verdadeiro, que é pancadão, que é orgânico, e vai para o lado estético, hipster, “cult” em um certo sentido.

Gosto muito dessa próxima pergunta e do nó mental que normalmente se forma na cabeça do artista. Você consegue pensar em duas músicas que você queria muito que fossem suas?
(risos) “Crua”, do Otto. Aliás, este disco do Otto… queria ter feito o disco inteiro! Acho o grande disco da nossa turma dos últimos 15 anos, imbatível, incomparável, uma obra-prima. O que foi expresso ali, especificamente nesta música, em termos de potência sentimental afetiva com contemporaneidade sonora, nossa! E ao mesmo tempo com muito sotaque, sotaque carregado.

Tem mais alguma na cabeça?

Ah, tem! E vem de Pernambuco também! É o Chico Science, que eu estava ouvindo esses dias. Não sei se escolhi duas de Pernambuco por coincidência, mas “Amor de Muito”, do Chico Science, é muito linda. Acho aquele disco, ainda hoje, muito à frente, sabe? Incrível também! “A menina esperava o seu homem chegar…” Acho extraordinário! Chico Science!

Agora sobre origens. Para você, quão fundamentais/relevantes as origens são em um processo musical?
Origens geográficas?

Família, de onde você veio…
Acho legal pensar que toda música tem um sotaque. E não estou falando de região, estou falando desse aspecto do indivíduo localizado. Sei lá, quando você vai ouvir Nirvana, aquilo tem Seattle, tem aquele universo absolutamente intenso do cara que compõe aquelas músicas, violento, etc. Muito diferente da atmosfera que acontece, sei lá, em Nova York, sabe? Por outro lado, tem essas músicas de periferias planetárias, que acontecem hoje na África, na Ásia, nas Américas… Também têm uma força singular e acho que a vida das pessoas, onde elas foram criadas, a memória afetiva, o que elas querem, sempre vai influenciar. Tem umas pessoas em que isso fica mais claro e tem outras que são mais abertas, mais híbridas e vão misturando as informações. Eu procuro ser um sujeito bem aberto às informações do planeta, estou sempre transitando entre lugares, perspectivas de olhar, mas sempre tem um lance de origem muito forte, aquela coisa da família que te criou, do lugar onde foi criado. É interessante pensar também que a ideia, mesmo a dos gregos, tem sotaque!

Você já disse que a alegria e o humor conseguem levar a música para mais longe, para lugares onde talvez ela não chegaria. Isso é algo que está sempre na sua cabeça?
É, acho que a alegria mais do que o humor. Porque, engraçado, às vezes estamos ouvindo uma música que é até sentimental, um pouco triste no conteúdo e no tema, mas você consegue realizar aquilo de um jeito tão pleno que sempre se converte em alegria. Como acontece comigo escutando “Crua”, que é uma dor de cotovelo rasgada, mas, se quero ficar feliz, ouço uma música dessas. Porque ela vai tão fundo e é tão verdadeira… Mas a alegria, enquanto algo para cima, também acho muito importante. A música tem várias funções, as pessoas ouvem música de um jeito totalmente espontâneo, as massas ouvem música para mil e uma funções, acho que tem músicas que conseguem se comunicar com tudo isso, são maiores do que qualquer mundinho, sabe? Eu busco isso, acho importante. A alegria é um vetor condutor de energia e de ideias!

Um encontro musical da sua vida está para acontecer. Neste encontro, tem você e mais três nomes. Você pode ouvi-los ou fazer música com eles. Queria saber quem você escolheria.
Posso falar gente que já morreu? Chico Science! Queria tocar com ele! Certamente eu iria tocar com ele se estivesse vivo, isso iria acontecer… Por causa da generosidade que ele tinha e da capacidade de perceber as conexões que tinham a ver com ele. Ah, Caetano Veloso é algo forte também, como negar? Vou falar Caetano e Gil como uma pessoa só, tá? Vê-los eu já vi, queria tocar com eles também, sou fominha! É isso, está bom, né? (risos)

Para fechar: você é um artista, qual é a maior dor e a maior delícia de ser um artista?
A maior delícia é poder viver materialmente dos seus sonhos, das suas vontades, do seu desejo, da sua maneira de se expressar! Nem todo mundo consegue fazer virar seu ganha-pão o íntimo de suas vontades. E às vezes é até meio conflituoso isso na profissão de artista, você ganhar para fazer algo que tem que fazer, tipo, se ninguém pagar para ver um show meu, vou ter que tocar em algum lugar para poder existir enquanto pessoa. Poder marcar um show e as pessoas pagarem pelo ingresso é a melhor coisa do mundo! Essa é uma das maiores delícias, poder exercer o sujeito que existe em você e isso ser abanado pelas pessoas, é muito bom ter a cumplicidade delas. Agora, a maior dor… Sei que é um pouco romântico, mas algo que pode ser delicado na profissão é você ter uma certa obrigação de estar ativo o tempo todo: eu não posso me dar ao luxo de ficar um ano sem fazer música, sem fazer shows. Mas… Acabei de pensar que em qualquer profissão é assim, né? Um médico não pode ficar um ano sem trabalhar. O que eu quis dizer é que é mais delicado você falar que vai ficar um ano só lendo, vendo filmes e viajando o mundo inteiro – eu conheço pessoas que tem o privilégio que fazer isso e espero um dia poder fazer o mesmo. Mas é algo que vale para qualquer profissão! Às vezes eu queria dar um pause nas coisas e ficar me alimentando, sabe, para a minha vida, mesmo, sem o compromisso de fazer as coisas.

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles