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Rubel

Rubel, 25 anos, é cantor e compositor. Mora no Rio de Janeiro (RJ).

Como a música aconteceu no seu caminho? Como você decidiu que era isso?
Bom, eu já contei a parte da gravação do disco muitas vezes, então vou pular direto para o que aconteceu depois que eu lancei. Quando lancei o disco, não tinha nenhuma grande expectativa, realmente achava que era uma parada para mim. Durante um ano, o disco se espalhou pouco, para os meus círculos mais próximos, e então surgiu uma oportunidade de trabalhar com cinema em Los Angeles. Larguei o disco – de certa forma -, abandonei o projeto. Achei que tinha dado o que tinha que dar, e fui trabalhar com cinema, fazendo estágio com roteiro. Quando eu tinha 15 anos, esse era o meu grande sonho. Fui pra Los Angeles, comecei a estagiar em quatro lugares diferentes e foi uma experiência incrível, mas, ao mesmo tempo, sempre ficava aquela pulga atrás da orelha: “Caramba, e o disco? E a música?” Porque eu sabia que aquilo era muito especial, que tinha uma força. Enfim, precisei voltar para o Brasil. Primeiro porque eu quis, segundo porque a viagem não deu tão certo quanto eu imaginava.

Quanto tempo depois?
Passei seis meses estagiando lá. Se eu fosse contratado, ficaria mais tempo, mas não fui, então tive que voltar. E acho que foi a melhor coisa do mundo, por tudo o que aconteceu depois. Voltei completamente perdido, porque o sonho do cinema não tinha dado muito certo, o sonho da música estava meio de lado, eu achava que o álbum já tinha acabado… Cheguei em casa e, como o disco era a única coisa que eu tinha deixado no mundo naquela época, pensei “bom, vamos ver no que dá” e postei no Facebook: “VOLTEI, VAMOS TOCAR.” E aí, pela primeira vez, eu recebi, tipo, duzentos, trezentos comentários, de várias pessoas do Brasil inteiro, falando pra eu tocar nas cidades mais inimaginadas. Eu tinha abandonado a página e não sabia da repercussão. Aquilo foi muito impactante, foi um choque. Eu não imaginava.

As coisas aconteceram sem você saber?!
Foi. O disco foi se espalhando muito devagar, sem eu saber que estava acontecendo. Aí falei: “Então é isso.” Decidi ir com tudo. Formei uma nova banda aqui no Rio no começo de 2015, com novos músicos, e a gente rearranjou o disco do zero pra sair em turnê. Começamos a rodar o Brasil e foi mais ou menos aí que entendi que música realmente era meu caminho profissionalmente. O cinema, na verdade, também é – e nunca deixou de ser. Depois que as coisas foram clareando, vi que dava pra juntar os dois. Comecei a dirigir clipes também, a união mais óbvia e perfeita entre música e cinema. Hoje em dia, continuo escrevendo roteiros aqui no Brasil, fazendo clipes e fazendo música.

A minha segunda pergunta era sobre o papel importante dos Estados Unidos sua história, mas você já falou sobre isso. É muito legal ver como uma viagem, uma decisão, pode mudar a sua vida completamente.
É muito impressionante o impacto que teve, e não só na minha carreira: eu comecei a namorar uma americana lá, que namoro até hoje, já faz quatro anos, e também fiz amizades que duram até hoje. Eu tive uma conexão muito profunda com a terra, a cultura e as pessoas de lá. A impressão que eu tenho é de que uma parte de mim que não se encontrava aqui no Brasil acabou se encontrando lá. Tudo fez mais sentido.

Quando é que você foi pra lá?
Em 2011, no meio do ano. Tinha 20 anos. E voltei pra Los Angeles com 22.

Você sente vontade de morar em Austin de novo?
Não. Passou, acho que foi um período que fez muito sentido naquela época porque eu precisava ter conhecido aquelas pessoas e entendido aquele estilo de vida, mas nada é igual ao Brasil. Aqui é o meu lar, mesmo, o lugar que eu amo.

Você me contou como começou… Tem ideia de como quer terminar? Você pensa nisso, em onde quer chegar? 
(risos) Não, eu não consigo imaginar onde quero terminar. Já pensei sobre isso, mas é impossível prever o futuro e fazer planos a longo prazo. Acho que a única coisa que eu consigo determinar é como quero fazer. O que penso é que quero explorar o máximo possível de possibilidades e não ficar limitado a um estilo ou a um projeto, quero poder fazer o que me der vontade e misturar todos os tipos de música. E se eu quiser fazer um disco de hip hop um dia? Quero poder fazer um disco de funk se quiser, fazer um filme… O lugar em que quero chegar é esse, um ponto onde eu possa explorar a minha criatividade, em que consiga realizar todas as ideias malucas que eu tenho na minha cabeça.

Você lançou o clipe de “Quando Bate Aquela Saudade” no último semestre, né? Fiquei pensando… o que você aprendeu sobre saudade durante todo o processo desta música?
Aprendi que todo mundo sente e sofre muito com ela. Porque a premissa do clipe era essa, falar sobre as diversas formas em que a saudade se apresenta durante um dia em uma cidade. Tivemos que achar mais ou menos 30 atores e não-atores durante a pré-produção, dos tipos mais variados, que pudessem representar as pessoas que imaginamos no roteiro. Durante o set, foi um processo muito intenso de conseguir fazer com que cada pessoa chegasse a um lugar de emoção, de conexão com a música, que tivesse uma certa catarse para o lance rolar de verdade. O interessante é que cada pessoa precisou ser acessada de uma forma diferente a partir de sua história de vida: tinha um molequinho de 12 anos que estava em uma escola, isolado, vendo uma galera jogar futebol, e a gente teve que criar ali uma saudade ou uma falta genuína. E existia, em algum lugar nele, uma tristeza, uma saudade muito profunda de alguma coisa – da mesma forma que um vendedor de balas no Saara, de 50 anos, com três dentes, também acessava na história dele um ponto muito parecido em termos de emoção. Da mesma forma que uma menina de 25 anos, de classe média, também possuía esta mesma sensação. Eu realmente acredito que não importa quem você seja, de onde seja, a cor, a classe social… no fundo, todo mundo sente as mesmas coisas e todo mundo é, em algum lugar, a mesma coisa.

Que bonito isso! Você conseguiria escolher duas músicas que gostaria muito que fossem suas?
Tem muitas, cara. Veio na minha cabeça “As Curvas da Estrada de Santos“, que o Roberto Carlos fez e que ouvi cantada pelo Caetano. É de uma elegância, uma precisão… Acho que as duas escolhidas seriam uma do Roberto Carlos e uma do Caetano. São caras que têm um domínio tão grande da composição que é admirável e invejável, dá vontade de ter feito todas as músicas deles. Eles contam histórias de uma forma tão bonita, tão precisa. Em “As Curvas da Estrada de Santos”, eu acho que ele está em um momento difícil da vida, com saudades, perdeu uma pessoa, não sei, e é como se estivesse chamando alguém para entrar no seu carro, no banco do carona, e dar uma volta com ele pelas estradas de Santos, obviamente, que é meio que uma metáfora para a sua vida.

A outra música seria “Quando o Galo Cantou“, do Caetano, que está no disco novo dele. É sobre um casal acordando de manhã. É a mesma precisão e a mesma elegância que o Roberto Carlos tem, de conseguir eternizar um momento ou uma ideia. Ele pega uma cena muito simples, um casal acordando de manhã depois de uma noite de sexo, e expande aquilo em um nível de poesia e de encantamento que… é isso. você ouve e pensa “a vida faz sentido”. Eles são contadores de histórias, são escritores.

Você poderia escolher uma colaboração que te deixou com lágrimas nos olhos e uma que te deixaria com lágrimas nos olhos?
Sim! O Kanye West com o Chance, The Rapper no último disco do Kanye, em “Ultralight Beam”. É a primeira música do disco, que eu ouço sem parar, porque é absolutamente maravilhoso. Você ouviu essa música?

Não! Mas vou fazer isso assim que terminarmos.
É meio que uma música gospel misturada com hip hop, só que não tem batida e o rap do Chance é uma obra-prima de letra, poesia e ritmo. É muito bem feita. E o Kanye quase não canta na música, talvez por isso ela seja tão boa. (risos) Ele usa vários cantores de igreja mesmo, tem até um padre que entra no meio e começa a recitar, como se fosse uma missa. É muito impactante, muito forte, e tem a ver com as coisas que estou fazendo agora, de alguma forma. E a colaboração que eu queria ver… Queria ver o Caetano… (pausa) Queria vê-lo colaborar com o Kanye West. Esta seria a minha colaboração dos sonhos.

E a sua colaboração dos sonhos, alguém que faria música com você?
Comigo? Uau. Nesse momento, é o Caetano. Posso falar três? Acho que seria mais justo. Caetano, Justin Vernon, do Bon Iver, e o Chance, The Rapper.

Bom, de uma forma muito prática, a colaboração dos meus sonhos agora é o MC Marechal, queria muito conseguir fazer uma faixa com ele. Espero que ele consiga me ouvir e que role.

Você é um artista. Qual é a maior dor e a maior delícia de ser um artista?
(risos) A maior dor é que a gente sente demais e pensa demais, tudo é muito intenso. E a maior delícia é essa também: tudo é muito vivo, então eu acho que, por ter este impulso criativo, a minha vida acaba sendo de extremos. Tudo o que é bom, é muito bom, e, tudo o que é ruim, é horrível.

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles