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Helio Flanders

Helio Flanders é cantor, compositor, produtor e vocalista do Vanguart. É de Cuiabá (MT).

Te conheço há muito tempo – fui assistir Vanguart no VangBeats, no Studio SP, milhares de vezes, enquanto eu estava na faculdade. Lá pra 2010, 2011… Você sente saudade dessa época?
Acho que sinto saudade de todas as épocas, de tudo que eu não posso viver mais… Aquele apartamento antigo, o caminho que eu fazia, aquelas pessoas. Mas isso não significa que eu queira viver – ou reviver – as coisas. Ou tampouco encontrar certas pessoas. Mas a gente sente saudade. Nem sei se é esta a palavra, mas o tempo parou ali, nesses lugares, na memória, então é bom lembrar. Eu sinto saudade de saber menos das coisas. Porque saber mais eu já sei, então isso já tenho. (risos) Ao saber menos, você vê o mundo de outro jeito. Era bom. Mas agora é melhor.

Talvez você sinta falta de ser um pouco mais ingênuo… Ou não é isso?
Acho que ingênuo eu nunca fui – não querendo me achar! (risos) Sempre me falavam: “Relaxa, Helio, você está muito paranoico.” Mas não sei, sinto falta de ter menos coisas na vida, de poder tocar Beatles numa sexta-feira às duas da manhã, tomando uísque…

Você está há vários anos vivendo de música e consegue fazer isso tão bem! Teve algum momento de virada, quando você descobriu que com certeza a música era o que estava ali pra você? Rolou isso ou foi mais natural, mais fluido?
Teve os dois. De fato foi bem fluido, foi acontecendo e, quando a gente viu, já estava rolando, tiveram momentos em falamos: “Nossa, pode ser que a gente consiga seguir com isso, pode ser que realmente tenha algo aqui.” Isso aconteceu no começo, em 2005, quando começamos a fazer shows em Cuiabá. Esta ficha demorou a cair, mas ela veio caindo – com muito cuidado, porque é bem fácil entrar num ciclo de vaidade e achar que “pronto, you’ve made it”. Nunca é assim, a não ser que você realmente olhe pra trás e veja uma obra extensa e que fale por você, mas não cheguei nisso e tenho que escrever muito, compor muito. Ainda me sinto neste ponto da minha carreira, tipo: “Estamos conseguindo coisas, mas precisamos trabalhar o dobro para que o melhor possa vir.” Estou em um processo de estudo, de estudar a própria composição, de uma autorreflexão pesada sobre o que quero falar, como quero falar, como quero soar, se a estética é esta mesmo, qual vai ser a próxima ruptura. É o que mais me move.

Tanto no Vanguart como no projeto solo tem muito espaço pra testar, né?
É, isso foi uma premissa desde o início. O Vanguart é muito movido pelo feeling, sabe? Se você não está bem, meu, não rola. Se eu não tivesse feito esse disco solo, talvez não estaria pronto pra fazer o próximo do Vanguart. Sou muito abastecido por rupturas estéticas: falamos de amor e agora posso falar de ódio, ou de morte, ou de outras coisas. Depois do segundo álbum do Vanguart, sobre despedida, sobre o fim, eu só poderia tratar de um começo. Então são rupturas, mas muito naturais. Eu adoro não ser mais o que fui – e isso é muito bom.

Com quantos anos você teve o seu primeiro contato com música? Você fazia aulas? Como isso despertou em você?
Eu tinha uns 12 anos e fiz um mês de aulas de violão, mas já ouvia muita música, ouvia The Beatles desde criança, gostava bastante de música clássica e acho que sempre fui criativo. Sabe aquela criança para quem você dá um violão e ela vai criar algo com aquilo? Você dá uma aquarela e ela vai pintar? Era meio isso. Mas nunca fui um cara só da música, acho que é até por isso que não sou um bom músico, porque nunca me debrucei apenas sobre ela.

Então você não se considera um bom músico?
Músico instrumentista? Não. Me considero um compositor ok, um cantor ok (risos), um criador ok, mas instrumentista, não – e nem pretendo ser. Prefiro tocar meia hora menos, pegar um livro e ver telinha (risos), ler poeminhas, gosto disso, mais do que ficar sendo virtuoso nas coisas.

Sabemos como você começou… Dá pra pensar em como quer terminar?
Quero terminar jovem, seja o que isso for. Não quero encaretar. Esta é minha grande busca. No sentido mais puro da palavra. Não quero ser um conformista. E estou falando de arte, não só de política. Não quero virar um bunda mole da arte, nem no sentido de virar comercial, nem no de achar que sou um gênio, ficar fazendo umas coisas estranhíssimas, bater no peito e dizer que aquilo é genial. Acho que emocionar pessoas, seja meia dúzia ou um milhão, é sempre a busca maior. Eu era muito sozinho na adolescência no sentido de arte. Tinha grandes amigos no futebol e na ‘night’, quando a gente ia beber, mas, quando eu voltava pra compor, ninguém falava a minha língua. Eu ouvia a Angela Ro Ro, o Morrissey e, quando eu lia aquelas letras, falava “nossa, eles se sentem exatamente como eu”. Para mim é muito importante esta questão da comunicação. Enquanto eu estiver aqui, gostaria de continuar sentindo, recebendo, me emocionando, descobrindo coisas, telas, poemas, artistas. O dia em que não sentir mais isso, eu paro. Não vou ficar batendo cartão.

Você acha que suas origens ainda influenciam a sua música? Ou depois de tantos anos em São Paulo você já foi arrebatado?
Que origens?

Sua cidade, de onde você veio, sua família, sua criação…
Não é fácil responder isso. Eu não vejo tão diretamente que me influencie. Mas, obviamente, coisas que vivi e vi em Cuiabá vão estar comigo pra sempre. E é curioso porque, quando paro pra escrever, não penso naquilo, no hoje e nem no ontem, eu só vou. Aí é louco como, depois de pronto, anos depois às vezes, você pega o negócio e pensa “nossa, este verso me traz de volta à imagem daquele quarto, daquela casa na ‘velha cidade’”. Então não vejo influência direta de Cuiabá no meu trabalho hoje, como não vejo de São Paulo também. Mas indiretamente… Este é o lugar que mais gosto como compositor: você conta uma história e ela é povoada de coisas que aconteceram em mil lugares, com mil pessoas diferentes, nos últimos mil anos. É muito bom. Às vezes falam: “Esta música é sobre isso?” E eu digo: “Sim, mas não apenas”. Acho difícil dizer se uma música é biográfica ou se a história é verdadeira. Não quer dizer que metade dela seja mentira, mas… O Waly Salomão falava que “memória é uma ilha de edição”, é isso, você vai colocando coisas, vai juntando…

Você consegue escolher duas músicas que queria muito que fossem suas? Que você escuta e pensa: “Cara, como eu queria ter feito isso!”
Ah, mil.. Eu gosto muito de “Trovoa”, do Mauricio Pereira, é uma música de amor linda, de uma época em que eu não acreditava mais em canções de amor… Ele fala uma frase na música que é o próprio tapa na cara, sobre o poema mais lírico se mostrar a coisa mais lógica. É isso, o poder da emoção, do sentimento. Eu penso nesta porque é muito imediata. Tem também um cara chamado Jair Naves. A figura dele é tão interessante! É um cara muito incrível e eu queria o catálogo dele pra mim. Um grande compositor, um artista pronto. A gente gravou uma vez uma música dele, chamada ‘Silenciosa’. É um cara muito especial. Adoro uma frase dele do último álbum, é linda, diz “que o amor encubra o som do mundo a ruir”. É romântico, né? Eu gosto.

Você consegue escolher uma colaboração que te deixou com lágrimas nos olhos e pensar em uma que te deixaria com lágrimas nos olhos?
Uma que me marcou muito foi a primeira vez com Cida Moreira. Eu tenho uma história louca com ela: quando tinha uns 17 anos, um amigo me apresentou o trabalho dela cantando Brecht e era uma época em que eu estava tendo um pouco de contato com música de cabaré. Eu a ouvi cantando e achei muito maravilhoso e estranho – sempre que eu disser estranho é bom, porque mexe com você de algum jeito. Lembro que a Cida me chamou uma vez pra cantar com ela, logo que cheguei em São Paulo, quando mal tinha casa e morava com uns amigos. Ela me chamou para cantar no Auditório do Ibirapuera, um álbum só de Cartola. Eu nem sabia o que estava fazendo, nem sabia como cantar. A passagem de som foi horrível, eu não estava conseguindo acertar. Na hora, no show, tudo aconteceu e foi um dos momentos mais bonitos que eu já tive no palco até hoje – só pensava que depois daquilo já podia ir embora, que já podia voltar pra Cuiabá, virar office boy e jogar bola. (risos) Foi um momento muito marcante pra mim.

Ao mesmo tempo, é difícil responder isso, porque eu sigo me emocionando com as pessoas, os encontros, as situações, a arte dos outros sobre mim. Por exemplo, estou fazendo agora um trabalho musical no Teatro de Narradores aqui de São Paulo, que tem sido bem interessante, e tem um ator jovem, o Renan Tenca, que é muito talentoso. Nós fizemos uma peça no começo do ano chamada “A Guerra Não tem Ensaio”, com direção do José Fernando Azevedo, que era eu e ele, eu no piano e ele atuando. Eu puxava ritmos, um tango, uma valsa, e ele improvisava em cima. Era tão maravilhoso ver algo nascer ali, uma pessoa nova, uma troca nova. Me lembrei do mesmo sentimento de quando eu fiz o primeiro show, sabe? Continuo recebendo essas coisas.

Qual é a maior dor e a maior delícia de ser um artista?
Engraçado isso… Acho que serve para os dois: se você é artista, não tem opção nenhuma. Você não tem opção de ser artista. Não escolher ser artista. É isso!

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles | Agradecimento: Ana Tex (figurino)