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Camila Honda

Camila Honda é cantora e compositora e nasceu em Belém (PA).

A primeira pergunta é sobre uma frase da bio do seu site, que te define como “meio brasileira, meio japonesa e um pouco europeia”. Explica quem é você.
É que meus avós por parte de pai são japoneses e vieram para o Brasil fugidos da crise do Japão na guerra. Meu pai já nasceu em Belém e minha mãe é paraense, mas ela tem descendência portuguesa, e eu morei um tempinho em Portugal. Mas não tenho cidadania portuguesa, só japonesa, acabei não vendo se era possível ter três cidadanias. Eu tenho essas referências, sabe? Convivi muito com os meus avós japoneses, convivo até hoje.

Você fez mestrado lá em Portugal, certo?
Sim, fiz mestrado em Criação Artística Contemporânea… Foi em 2009. Morei lá por pouco mais de dois anos, em Aveiro, fazendo mestrado, e em Lisboa. Ficava um tempo lá e um tempo cá. Eu comecei um estágio em Lisboa e tive uma peça em cartaz ali, de teatro musical.

É muito cruel te perguntar qual foi o lugar da mais lindo da Europa que você conheceu?
Mais lindo? (risos) Eu gostei muito de Barcelona, foi uma experiência incrível. Você está no lugar em que viveram Miró, Gaudí, Salvador Dalí… Todo aquele astral no mesmo ambiente! Foi muito incrível para mim estar neste lugar de onde estes caras que eu admiro tanto vieram.

Como você começou a fazer música, Camila?
Quando saí de Belém, já fazia trabalhos de teatro musical. Eu tinha uns 24 anos – fiz 30 agora -, e, além do teatro, eu cantava algumas coisas que não levavam o meu nome, sabe? Sempre era um projeto de alguém. Eu tinha isso, essa coisa, essa timidez de ficar nos bastidores, mas fazia aula de canto há alguns anos. Eu já era amiga do Felipe Cordeiro: lá em Belém, a gente tinha participado de alguns projetos juntos de teatro musical e, quando fui pra Portugal, começamos a nos falar muito, falar sobre um dia produzir um trabalho para mim, que fosse meu, o começo da minha carreira. Passamos este tempo todo dialogando, trocando muitas ideias, ouvindo músicas juntos, conversando, se afinando. E aí, quando voltei para Belém, a gente logo investiu nisso. Cheguei no final de 2011 e em 2012 começamos o trabalho. Fizemos tudo muito juntos, do início ao final deste primeiro CD, numa parceria muito grande. Ele também é paraense e é produtor do meu disco.

Li sobre ele no encarte, que, inclusive, é muito lindo.
Eu que desenhei! Tudo que está desenhado é meu. E as letras também!

Você desenha, canta, atua e também dança, é isso?
Fui bailarina por 12 anos ou mais, 14, talvez. Eu venho da dança e acho que minha afinidade com a música surgiu daí, a minha sensibilidade musical. Eu comecei com dança pequena, tinha quatro ou cinco anos.

Estava lendo matérias e artigos sobre você e as pessoas invariavelmente citam aquilo da música paraense, mas uma das primeiras coisas que sempre falam é que o seu som não soa “tão paraense”. Existe muito este estereótipo, né? Da música típica e regionalista, que é bem forte no Pará. 
Eu não me sinto fazendo uma coisa muito tradicional, o meu processo é diferente. A minha família não é de músicos, nunca tive isso de crescer com esta bagagem de tradição musical. E na minha casa ouvia-se muita bossa nova, sabe? Clube da Esquina, The Beatles, muito pop rock em inglês. Depois de grande é que fui fazendo meus amigos músicos e, por ter me aproximado do Felipe, conhecido o Manoel Cordeiro, que é pai dele, e por ter participado de muitas coisas junto a eles é que comecei a me aproximar mais desta tradição. Isso foi muito importante pra mim também, engrandecedor. Eu cresço demais dividindo palco e projetos junto com estas pessoas, com o Manoel, com o Toni Soares, que é um cara incrível de Belém, com estes caras que estão fazendo música há muitos anos e que construíram esta história – para que hoje o Brasil olhe pra gente.

Quando você pensa sobre como estará quando chegar no “topo”, o que surge na sua cabeça? Como seria o “fim de caminho” para você?
Esta pergunta foi bem tocante. Estou muito em um caminho de busca. Pela minha verdade, pela coisas em que acredito, cada vez me aproximando mais de mim mesma, me apoderando da minha verdade. Tem tanta coisa que eu gosto de fazer! Gosto de desenhar, de ilustrar, e nunca dediquei muita energia a isso… Também de dançar! São muitas possibilidades e eu até demoro a falar quando digo “ah, sou cantora”, nem gosto muito de dizer, porque eu me sinto artista, sabe? Me sinto podendo cantar, podendo fazer um disco, mas igualmente capaz de fazer outras coisas. Por enquanto, a minha energia está voltada para isso, mas, a partir do momento em que eu conseguir organizar melhor as coisas e me dedicar a estes outros caminhos, eles também vão voltar a fluir, né? Acho que minha procura é por este equilíbrio, por poder me sentir realizada nas artes e não só na música. Tenho investido nisso: fiz uma lojinha virtual em que eu desenho as camisas, as coisas do site são todas eu que desenho!

Você pode escolher duas músicas que não são suas, mas que você queria muito que fossem?
Cara, eu queria muito (risos) ter feito uma música do Raul Seixas, muito, muito, muito. (cantando) “Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar, eu sou as coisas da vida, eu sou o medo de amar…” Isso é de uma simplicidade! Eu cantei esta, mas poderia ser uma de qualquer outra destas pessoas para quem a música vem fácil. Então podia ser “Gita“. Talvez eu também escolhesse alguma música dos Beatles, “Something“.

Gosto tanto! Você conseguiu ir pra Liverpool enquanto esteve na Europa?
Cara, eu fiz uma eurotrip uma vez e uma amiga que estava nessa viagem perdeu as passagens pra Liverpool! Ela as jogou fora arrumando a bolsa, aí a gente não foi pra Liverpool porque eu já não podia mais esperar e passaríamos um dia só, então… Perdi a minha viagem tão sonhada!

Poxa! Andar nas ruas por onde eles andaram…
Sentir o contexto daquelas músicas, né? Eu estava em Porto Alegre, no centro cultural no hotel em que o Mario Quintana morava, e aí tinha o quarto dele lá, conservado, foi tão legal ver o cenário em que ele vivia! Tinha uma foto da Bruna Lombardi na parede, uns gnomos de chapéu na estante…

Seu som é muita graça e, ao mesmo tempo, muita poesia. O que é que desencadeia o seu processo criativo na sua vida, na sua rotina, no seu dia a dia?
Olha, estou no meio de um processo criativo para um próximo disco. E estou vindo de uma experiência em uma comunidade terapêutica lá de Porto Alegre, estou muito nesse caminho das meditações, do Osho, em uma busca pela minha verdade mesmo, que é o que tem me dado vontade de compor. Passei um mês nessa comunidade, mas tenho ido pra lá desde o ano passado. É um lugar muito especial, e lá tem horta, tem tomateiro, tem um campo de girassóis… Aprendi a fazer granola, queijo, molho de tomate… São coisas muito simples de pessoas que estão em um caminho de muita coragem, de desfazer-se do ego e ter relações mais reais com as pessoas, com menos filtros. Eu estou nesse processo, e tem a questão de trabalhar com a imagem no meio disso tudo, sendo artista e tal. Sempre dá uma bagunçada, tem a coisa da vaidade. O meu maior tesão agora é estar sempre investindo em quebrar isso e, quanto mais eu quebro, quanto mais me aproximo da minha verdade, melhor é minha relação com as pessoas e melhores são as pessoas com as quais me relaciono. E mais preenchida eu me sinto com estas relações.

Quando você é serena e quando é transgressora?
Outro dia, um amigo de alguém foi no meu apartamento e fez uma leitura de cada um que estava ali, muito rápido, o cara tinha acabado de nos conhecer. E ele falou: “A Camila é uma flor, mas ela tem uma violência!” (risos) Acho que estou sempre nessa linha tênue!

Qual foi a colaboração que te deixou com lágrimas no olhos e qual seria a colaboração que te deixaria com lágrimas nos olhos?
Olha, foram muitas, mas acho que a mais especial, não posso negar, foi a minha parceria com o Felipe – porque foi ele quem me ajudou a me descobrir cantora. Isso é muito precioso e eu sempre falo, porque realmente é.

Ai, não posso errar agora. Tem tanta gente com quem eu queria dialogar! Eu tenho meus grandes ídolos, então Rita Lee com certeza, a Marisa Monte… E tem um cara que se um dia eu ouvisse a voz dele de muito perto não sei o que faria, acho que ficaria congelada: o Geraldo Azevedo, pra mim, é um cara incrível.

Queria que você, como artista, dissesse qual a maior dor e qual a maior delícia de ser artista.
Teve uma música que eu gravei no programa “Cantoras do Brasil” que foi uma descoberta para a minha vida, virou um mantra. Ela diz assim: “O que é uma vida de artista no mercado comum da vida humana? Um projeto de sonho inocente, eu talvez nem te veja esta semana.” Esta pergunta é incrível, porque ser artista traz os questionamentos da minha vida, da minha relação com as pessoas, com o mundo, com o lugar em que eu vivo. Mas como transformar isso em uma profissão… no mercado comum da vida humana? Da arte no cotidiano, de ganhar grana, pagar as contas. Eu gosto de poder dizer que a minha arte é o meu trabalho, mas, ao mesmo tempo, isso é enlouquecedor, é um conflito. Parece tudo tão etéreo, tão abstrato,Temos que lidar com o tempo para executar estas coisas… e também com a vida real. Talvez a maior angústia seja essa: conseguir viver os meus questionamentos, produzir a partir deles e trazê-los para a vida prática.

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles | Maquiagem: Marcela Queiroz, do Santa Maquiagem | Figurino: Fernanda Yamamoto