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Ana Cañas

Ana Cañas é cantora, compositora e atriz. Nasceu em São Paulo (SP).

Queremos saber sobre o seu começo: como você decidiu que música era o seu caminho? Suas origens influenciaram a música que você faz hoje ou você acha que ela já se transformou muito?
Bom, esse começo é estranho e inusitado. Eu me apaixonei pela voz da Ella Fitzgerald e saí decorando suas canções (Cole Porter, Gershwin, etc). Não sei te dizer porque isso aconteceu. Quando olho para trás – e já se vão quase uns 12 anos,  só posso imaginar que era pra ser assim mesmo e ponto. Tipo coisa escolhida antes de nascer, ainda lá do outro lado? É isso que eu acredito, de verdade. Minhas origens são tão estranhas quanto esse começo. Música clássica que minha mãe escutava enquanto varria a casa aos finais de semana, radinho de pilha, sacando a musicalidade do narrador do jogo de futebol a 240km/h, trilha sonora de peça de teatro da escola montada em fitas cassete, rádio FM e Chico Buarque. Cresci ouvindo e sentindo (tudo) isso. Quando penso na música que faço hoje, reconheço ecos de todas essa histórias, conscientemente ou não. Acho que esse tipo de memória sempre dialoga com a nossa essência e não nos abandona nunca. Nesse momento, sou muito influenciada pelo rock – mas, pra mim, o ‘rock’ é tudo que exige atitude, posicionamento e verve. É uma questão que há muito tempo transcendeu o gênero. Nina Simone ou Nelson Cavaquinho são bons exemplos.

Já falamos sobre o começo, então… Onde você quer chegar? Como quer terminar?
Quero ser feliz. Quero construir uma obra que tenha algum significado poético, dialogar com a minha geração, quero amar e fazer as pessoas felizes. Quero terminar feliz por ter feito algo que eu me orgulhe de ter realizado com verdade, beleza, poesia e paixão.

Você pode escolher duas músicas que gostaria muito que fossem suas e dizer por quê?
Engraçado, mas eu não sinto isso com nenhuma música, um desejo de que algo que admiro muito tivesse sido feito por mim. Até porque não consigo dissociar na minha mente e no meu coração a história de quem teve o mérito pessoal artístico de as ter criado. Apenas vibro com amor e gratidão a feitura daquela obra no universo ou que alguém tenha capturado com sagacidade alguma ideia incrível. Mas eu posso te dizer duas que eu amo profundamente: “Glory Box“, do Portishead, e “Lágrimas Negras“, do Mautner.

Como você relaciona música e poesia no seu processo musical?
É difícil pra caralho escrever um música. Um boa música. Então, além da melodia ser linda e tocar você de alguma forma inexplicável, a letra precisa dizer algo que seja compatível com a verdade de muita gente e ainda ser intrinsecamente pessoal, idiossincrática e verdadeira. A junção de todas essas coisas é uma alquimia totalmente dependente de inspiração, boas referências, dedicação e trabalho, muito trabalho. A poesia sempre vai me mover a algum lugar que eu nunca sei qual é, nem aonde fica – mas que eu imagino que vá me emocionar num lugar que justifique a gente ter nascido e vivido até aquele momento, só pra ler aquilo. Basicamente, é isso.

Mulher e música: como combina? Como ajudar? Como incentivar?
Música combina com tudo, inclusive mulheres. O que seria das nossas vidas sem a Gal, a Patti Smith ou a Billie Holiday? Você viveria sem elas? Eu não. Mas não sei se eu entendi direito – essa pergunta pode ser interpretada como machista -, mas todo ser humano combina com o que é maravilhoso, com o que nos fode e nos ilumina ao mesmo tempo.

Você pode escolher uma colaboração que te deixou com lágrimas nos olhos? E uma colaboração que te deixaria com lágrimas nos olhos?
A minha parceria com o Arnaldo Antunes me emociona muito. É muito difícil explicar o que eu sinto quando estou sentada no tapete da sala da casa dele, fazendo música de madrugada com o meu ídolo, tomando um chá, fumando uns cigarros e ele ali, sendo o cara mais legal, gentil, gênio e gente fina do planeta. Porra, só você vivendo isso pra entender. Uma outra? Eu adoraria ter cantado com o Tim Maia nos anos 70.

Como foi pra você a experiência de fazer cinema? Quer falar sobre o longa pra gente?
Foi massa. A Vera Egito (diretora) me convenceu a fazer o filme, porque – você sabe – eu sou uma péssima atriz. Mas… guardadas as devidas proporções da minha falta de talento, eu sou uma cinéfila doente. Amo, adoro, vivo e respiro cinema. E justamente por conhecer Rossellini, Cassavetes, Pasolini e tantos outros, sei que, muitas vezes, a naturalidade, o realismo cru e a falta de experiência alimentam positivamente a linguagem cinematográfica. É até engraçado o cinema englobar esse tipo de perspectiva, mas acontece. No teatro, isso seria impossível. Então eu aceitei o convite da minha querida amiga e adorei ter participado. Tem uma cena que é inspirada em “O Desprezo”, do Godard – e isso já seria motivo suficiente pra que eu desejasse fazer o longa. Mas foi muito além e aprendi muito com todo o backstage, equipe, atores. É muito lindo e muito divertido ao mesmo tempo. Foi uma honra, e a minha personagem, a Duda, vive um drama pessoal contemporâneo – ela não quer assumir publicamente a homossexualidade. Acho muito interessante esse tipo de debate na arte e adorei ter feito. [O filme “Amores Urbanos” estreia em 5 de maio de 2016.]

Você é uma artista. Qual é a maior dor e a maior delícia de ser um artista?
A maior dor é a maior delícia: ser fiel a você mesmo, sempre. O inimigo meu sou eu.

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles