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César Lacerda

César Lacerda é cantor, músico e compositor. Nasceu em Diamantina (MG).

Como você começou? Queria que você dissesse como decidiu que música era o seu caminho.
Sou de uma família de três filhos, sou o caçula, e na minha casa não tinha esse papo de babá, eu ia pra escola de música com a minha mãe. Eu ficava o dia inteiro ali na escola de música dela, então, por conta disso, escutei uma série de instrumentos – e música sempre foi uma questão na minha vida. Mas quando eu decidi… Eu não me lembro, o processo foi sendo sempre tão natural! Meus amigos queriam ser jogadores de futebol e meu sonho era fazer alguma coisa com música, mas não era uma coisa certa, sabe? Tipo “quero ser músico!”. Isso veio muito mais tarde, essa clareza.

Agora queria saber onde você quer chegar. Como você quer terminar.
Nossa, acho que esta é a pergunta mais difícil que já me fizeram de todas! (risos) Porque o que você está perguntando não é uma coisa tipo “quero ser estrela igual ao Bono Vox”. Acho que o lugar onde quero chegar é um local de absoluta serenidade, de encontro absoluto com aquilo que eu sou. Como se fosse um portal onde eu finalmente me encontrasse. E é como se fosse uma busca espiritual, mesmo. Talvez a música seja esse caminho, no qual eu me encontre finalmente.

Você pode escolher duas músicas que gostaria muito que fossem suas?
Esta coisa sempre varia, né? Agora, especificamente, acho que seria “Eu Sou Neguinha“, do Caetano Veloso, primeiro pela maneira como Caetano é profundamente cartesiano e levanta questões bem racionais, mas de maneira muito sensível. Afinal de contas, quem é que eu sou e, se sou essa coisa que imagino, por fim sou uma mulher negra, eu sou aquela neguinha que dança, enfim… Tão bonito. Eu queria muito ter feito isso! Por outro lado, eu ia falar alguma do Gil, mas vou escolher uma do Milton [Nascimento], que é “Cais“, uma vez que eu falei sobre caminho da espiritualidade. É uma canção tão doída porque é um processo quase onírico pra se responder algo a respeito de uma desilusão e, ao mesmo tempo, esta imagem fodida de bonita que é a pessoa diante da imensidão – e a falta de respostas a leva finalmente a mergulhar em vez de voltar atrás.

Tirando música, o que você mais ama fazer? Algo que te deixe feliz, leve, te distraia…
Definitivamente cozinhar é o processo mais próximo de música para mim, e é um dos que mais me interesso e faço com recorrência. Sempre cozinho porque tenho uma alimentação mais específica, não como carne, nem açúcar, e existe uma coisa meio que de alquimia no processo de feitura – tanto da música quanto da comida. Acho que, se não fosse músico, eu poderia ser cozinheiro. (risos)

A sua alimentação é específica por necessidade ou por escolha?
Por escolha. Eu fui deixando de comer várias coisas… O açúcar, por exemplo, tem três anos que não como, carne já tem muitos anos. E é curioso: outro dia, estava no supermercado, comprei um monte de coisas, um monte de legumes e tal e, na minha frente, tinha uma moça com uma criança de colo. Vi o carrinho dela e era biscoito recheado, salgadinhos, porcarias… É muito triste para essa criança que a maneira de ela se encontrar com a comida seja essa…

As suas origens influenciaram sua música? Me parece meio óbvio que sim…
É curioso, mas eu não acho isso óbvio, não. Eu tenho na minha casa 9, no meu mapa astrológico, tenho Áries e significa que esta casa, que é a casa das viagens, me faz sair sempre, sair em busca de alguma coisa. Então “origem”, pra mim, assim como origem é Diamantina, minha família, origem pra mim é também aquilo que corro atrás. Posso te dizer que tudo o que sou é uma profunda e muito específica mistura de onde vim e para onde estou sempre buscando ir.

A Carol Vianna (fotógrafa do projeto) disse ter a sensação de que sua música soa muito mineira e, ao mesmo tempo, não. Ela não conseguiu me explicar muito bem o porquê, mas é algo que sente quanto te escuta. Achei isso legal, interessante.
Eu acho que é uma percepção bonita e vai ao encontro disso que eu acabei de dizer. O que ela vê de mineiro tem a ver com uma característica também astrológica minha, que é a ascendência em Câncer: porque é doce, a gente tende a achar que é muito mineiro. Claro que ela está ouvindo outras coisa ali, mas acho que tem uma coisa da delicadeza, ou da singeleza – que tem a ver com Minas Gerais. Acho curioso isso, porque eu estou em uma fase completamente deslumbrada por São Paulo, feliz e sinto que, pela primeira vez, cheguei a uma cidade que é a minha cidade, apesar de saber que não vou ficar aqui para o resto da vida. Eu amo o jeito como as pessoas pensam, como elas articulam, acho lindo como falam “CésaR LaceRda”, então acho maravilhoso ver que, no Brasil, o outro é muito próximo, né? Este mineiro, que é tão distante, é uma figura que mora a 50 minutos de avião daqui!

Você pode escolher, por favor, uma colaboração que te deixou com lágrimas nos olhos… E uma que te deixaria com lágrimas no olhos?
No meu primeiro disco, tem uma participação do Lenine… e tem uma do meu irmão, também. Estes dois momentos no “Porquê da Voz” foram muito profundos. O Lenine porque é um gigante, um mestre, um norte… E o meu irmão por estas mesmas coisas, só que ainda por cima é o meu irmão. E aí tem uma coisa curiosa. Quando fui gravar o “Paralelos & Infinitos”, tinha uma vontade de fazer uma canção em que minha mãe tocasse. E aí eu fico pensando que essa talvez fosse uma grande colaboração. De novo estamos falando naquilo sobre de onde eu vim e pra onde vou, as origens e tudo mais, e acho que, no momento em que conseguir fazer uma gravação com a minha mãe, é como se eu estivesse chegado a um ponto de encontro daquilo que eu fui, sou e serei.

Se a sua vida fosse um gênero musical, qual seria?
Indefinido.

É mesmo?
Você diz com tanta certeza de não ser… que eu começo a duvidar.

Não consegue nem fazer um combinadinho?
(risos) Eu acho indefinido bonito. Tem uma história super bonita do Milton Nascimento, de quando ele chega no mercado – não sei se europeu ou norte-americano -, porque quando você vai a determinadas lojas, os álbuns estão divididos em jazz, MPB, world music… E os discos dele estavam na categoria “Milton”. O nome da prateleira dele é esse. E eu acho isso tão profundo, é uma coisa que não é possível de ser definida. Indefinido, quando eu quero dizer, é isso. É aquilo que não se define, mais do que uma coisa pejorativa de não encontrar significado. É o que está por ser definido.

Você é um artista. Qual a maior dor e a maior delícia de ser um artista?
Difícil essa pergunta. Acho que a grande delícia do artista é o encontro. O encontro com outros artistas, com o público, consigo próprio… São muitos encontros na trajetória. E isso é enriquecedor humanamente. Agora, a grande dor acho que tem a ver com a reverberação da personalidade de cada artista. Eu, por exemplo, sou muito ansioso e perfeccionista e, no fazer, estou sempre me debatendo nestes dois lugares, na ansiedade de controlar o processo. Então, como a vida não é nada objetiva, me torna muito doído um projeto de carreira, de vida, um projeto artístico que visa o perfeccionismo. Talvez esta seja a grande dor de ser artista, não conseguir realizar nunca do jeito que se espera. O que é foda é que sai sempre melhor (risos), mas acho que esta é a dor.

 

Fotos: Carolina Vianna | Entrevista: Fernanda Meirelles | Maquiagem: Bel Lusher